É de manhã. Os raios emitidos pelo Sol a exatos 149.600.000 quilômetros da Terra desenham-se sobre a parede do meu quarto, sobre os livros bagunçados do armário de madeira e sobre o lençol que me cobre. Calor. Na rua em frente a minha janela, existem uns poucos pingados de árvores enormes, alguns arbustos, que tremem-se quando ventos insistem em brincar de pique-esconde entre eles. Alguns passarinhos repousam sobre o cimento do lado da minha janela, que está a muitos metros do chão. O gás oxigênio em tamanha quantidade, percorre a atmosfera de ninhos de prédios da cidade, e deseja que os seres vivos o respirem com o mínimo de delicadeza, e o máximo de força, que é pra poder saciar, que é pra nós usarmos e abusarmos do privilégio de poder respirar. Mas, ao acordar, eu não percebo o Sol, muito menos me dou conta de como pequeno sou. Me torno surdo ao chacoalhar das árvores, e ignoro completamente a existência do ar. Eu me acordo, e do lado da minha cabeceira encontra-se um pedaço de metal, que contêm mil e uma coisas, que eu juro de pés juntos serem a minha identidade. Suavemente, passo meus dedos sobre a tela. Entro numa rede social e dou meu primeiro respiro do dia: likes. Vou ao banheiro enquanto coloco em dia minhas notificações, que é pra não acumular. Por um instante, deixo-o em cima da pia, sobre uma toalha, que é pra não molhar ou cair, e rapidamente tomo um banho. Terminado o banho, em meu quarto, ponho peças de roupas que as comprei por indicação de pessoas que eu vejo através daquele pedaço de metal. Pessoas que eu não conheço, mas que, tem tanta influência na minha vida. Na verdade, eu as escuto mais do que a meus pais. Na verdade, eu nem escuto meus pais. Depois, na mesa do café da manhã, como rápido, que é pra não perder a hora. Se não der, só tomo um café mesmo, afinal, tudo é mais importante do que ter uma boa alimentação. Meu almoço é uma mistura de substâncias enlatadas, em forma de sanduíches e outras porcarias, que comprei no supermercado, mas que vinha com um rótulo até convincente: modelo famoso de corpo aceitável, com sorriso grande, fazendo questão de mostrar os dentes brancos. Fazendo questão de associar a compra daquele produto à felicidade. Já pensou? Minha felicidade se resume a consumir coisas: roupas, sapatos, motos, carros, casas, aplicativos, seguidores, amigos do facebook, likes. Ao navegar de novo pelo lindo mar da web, me deparo com pessoas que, por incrível que pareça, pensam igual a mim! Vejo anúncios somente de coisas do meu interesse, e sempre me impressiono em como a internet me conhece. Como o Sr. Facebook sabe bem dos meus princípios. Nada é induzido, tudo é questão de sorte. Se vejo alguma opinião contrária ou diferente da minha, já crio antipatia, capaz de eu excluir ou denunciar a pessoa. Afinal, o que é certo pra mim, é o certo para o mundo e para todos os povos de todos os continentes. Não vou mentir: contribuo com o discurso de ódio quando leio opiniões contrárias às minhas.
Toda manhã dou de cara com a tela brilhante do celular e toda noite me despido. Mas se despir por completo desse pequeno aparelho de metal? Nunca. Apenas falo com pessoas que tem a mesma lógica e opinião que a minha: eu sou aceito. Existe outro propósito nessa vida do que se sentir parte de um grupo, ser aceito? Eu acho que não.