quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

Relato de Um Dia no Século XXI


É de manhã. Os raios emitidos pelo Sol a exatos 149.600.000 quilômetros da Terra desenham-se sobre a parede do meu quarto, sobre os livros bagunçados do armário de madeira e sobre o lençol que me cobre. Calor. Na rua em frente a minha janela, existem uns poucos pingados de árvores enormes, alguns arbustos, que tremem-se quando ventos insistem em brincar de pique-esconde entre eles. Alguns passarinhos repousam sobre o cimento do lado da minha janela, que está a muitos metros do chão. O gás oxigênio em tamanha quantidade, percorre a atmosfera de ninhos de prédios da cidade, e deseja que os seres vivos o respirem com o mínimo de delicadeza, e o máximo de força, que é pra poder saciar, que é pra nós usarmos e abusarmos do privilégio de poder respirar. Mas, ao acordar, eu não percebo o Sol, muito menos me dou conta de como pequeno sou. Me torno surdo ao chacoalhar das árvores, e ignoro completamente a existência do ar. Eu me acordo, e do lado da minha cabeceira encontra-se um pedaço de metal, que contêm mil e uma coisas, que eu juro de pés juntos serem a minha identidade. Suavemente, passo meus dedos sobre a tela. Entro numa rede social e dou meu primeiro respiro do dia: likes. Vou ao banheiro enquanto coloco em dia minhas notificações, que é pra não acumular. Por um instante, deixo-o em cima da pia, sobre uma toalha, que é pra não molhar ou cair, e rapidamente tomo um banho. Terminado o banho, em meu quarto, ponho peças de roupas que as comprei por indicação de pessoas que eu vejo através daquele pedaço de metal. Pessoas que eu não conheço, mas que, tem tanta influência na minha vida. Na verdade, eu as escuto mais do que a meus pais. Na verdade, eu nem escuto meus pais. Depois, na mesa do café da manhã, como rápido, que é pra não perder a hora. Se não der, só tomo um café mesmo, afinal, tudo é mais importante do que ter uma boa alimentação. Meu almoço é uma mistura de substâncias enlatadas, em forma de sanduíches e outras porcarias, que comprei no supermercado, mas que vinha com um rótulo até convincente: modelo famoso de corpo aceitável, com sorriso grande, fazendo questão de mostrar os dentes brancos. Fazendo questão de associar a compra daquele produto à felicidade. Já pensou? Minha felicidade se resume a consumir coisas: roupas, sapatos, motos, carros, casas, aplicativos, seguidores, amigos do facebook, likes. Ao navegar de novo pelo lindo mar da web, me deparo com pessoas que, por incrível que pareça, pensam igual a mim! Vejo anúncios somente de coisas do meu interesse, e sempre me impressiono em como a internet me conhece. Como o Sr. Facebook sabe bem dos meus princípios. Nada é induzido, tudo é questão de sorte. Se vejo alguma opinião contrária ou diferente da minha, já crio antipatia, capaz de eu excluir ou denunciar a pessoa. Afinal, o que é certo pra mim, é o certo para o mundo e para todos os povos de todos os continentes. Não vou mentir: contribuo com o discurso de ódio quando leio opiniões contrárias às minhas.
Toda manhã dou de cara com a tela brilhante do celular e toda noite me despido. Mas se despir por completo desse pequeno aparelho de metal? Nunca. Apenas falo com pessoas que tem a mesma lógica e opinião que a minha: eu sou aceito. Existe outro propósito nessa vida do que se sentir parte de um grupo, ser aceito? Eu acho que não.

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Carta com destino à 2017

Querido 2017,
são 19:57 da noite, estou sentada na cama do meu quarto. Na sala está meu irmão assistindo tv, minha mãe está dormindo no quarto. Meu pai saiu, e não sei pra onde foi, mas jajá volta, não acho que tenha saído muito arrumado. Quase agora brinquei com Nick, os olhinhos pretos continuam brilhando, e quando ele se deita, ajeita as patinhas de modo que deixa o ambiente mais leve. Patinhas de cachorro esticadas ou juntinhas tem um poder muito grande, não podemos subestimá-las. Típico dia qualquer, com exceção de que faltam 4 dias pra você acabar. E, nesse exato momento eu estou tentando fazer uma retrospectiva de tudo que aconteceu. Tentando lembrar do filminho de cenas que vivi esse ano. O quão sortuda sou eu por ter por perto o cheirinho de mamãe por algumas horas do dia, de poder ver em cena as cartas da manga do meu pai diante de situações de um quase cheque-mate que a vida lhe dá, um irmão que está crescendo tão rápido e tão devagar ao mesmo tempo, por ter um cachorro, um ser vivo que me ensina lições todos os dias, por ter uma casa, uma cama, por ter comida todos os dias, por ter livros ao meu redor, e por poder lê-los. Por ter aprendido, de modo mais aprofundado, milhares de coisas sobre áreas que tanto admiro, biologia, física e química: saber que somos compostos por milhares de partículas pequeninhas que estão em constante movimento, às vezes lento, às vezes rápido, mas sempre em movimento. Estamos vivos. Tem algo mais lindo do que observar detalhadamente a cena de um ser vivo respirando e saber o que se passa durante todo aquele processo? São milhões de acontecimentos ocorrendo a cada segundo. É um mundo que vive intrisecamente a nós, mas que não podemos vê-lo, pelo menos não a olhos nus, mas pelo lado contrário podemos senti-lo. O quão irônico e contraditório é isso? Quero agradecer por eu ter tido a oportunidade de errar, várias vezes. Como também nos anos anteriores, bem, algumas coisas nunca mudam. Mas tive a oportunidade de consertar muitos, de vê-los de um outro ângulo, de poder saber que posso crescer com eles e que devo celebrá-los. Eu usei óculos-de-rosa escuros, mas tentei colocar outras lentes também. O mundo continua um lugar violento e preconceituoso. Eu pude vivenciar situações mais de perto, entender contextos diferentes. Entretanto, ele pode ser uma faca de dois gumes. Prefiro acreditar que tenha vários gumes, de vários formatos, quanto mais singulares, melhor. Pra cada ato de intolerância, existem grupos de pessoas que lutam a favor da empatia com o próximo. E eu descobri que pequenos atos podem fazer a diferença sim, devemos tomar iniciativa de algo que estiver ao nosso alcance e que faça o bem. Seja colocar um lixo que você encontra na calçada, na praia, ou em qualquer outro ambiente, no lixeiro. Seja presenciar a violência e não ser passível, denunciá-la. Seja ver um cachorro de rua, pegar um copo plástico ou qualquer outro objeto que sirva para colocar um pouco de água ou comida. Me toquei que a bondade ainda existe, e que eu posso, também, fazê-la acontecer. Esse ano, eu aprendi que eu não devo focar nos defeitos que existem no mundo ou em mim, e sim na forma de lidar com eles e do que posso fazer para ajudar a revertê-los, a partir de ações que estejam ao meu alcance. Entendi também, que temos que aprender a nos conhecer, como eu já havia conversado com uma amiga faz alguns dias: autoconhecimento é a chave para trilhar aquele caminho pelo qual você sente que está no lugar certo, na hora certa. Não quero dizer "caminho certo", na verdade, não existe uma sequência de etapas a serem seguidas para alcançar o mais alto patamar de felicidade, muito menos um significado fixo do que é felicidade, e isso já é uma questão de milênios atrás, desde de que o mundo é mundo. Isso é algo que criaram porque é muito mais fácil padronizar coisas, como se põe código de barras em produtos. O problema é que não somos coisas, não somos algo mecânico, somos seres vivos. Querido 2017, obrigada pelas cenas incríveis que vivi, sejam as de tristeza e as de amor, principalmente aquelas em que passei com pessoas que eu amo, até aquelas em que não aconteceram aparentemente "nada",  mas o simples ato de respirar já bastou. Obrigada por ter colocado um lago enorme a minha frente para que eu pudesse através do espelho d'água, enxergar meus defeitos e abraçá-los ao invés de abominá-los. Por ter aprendido a compreender o reflexo de quem anda ao meu redor, e por ter aceitado que as pessoas vivem de mudanças. Entendi que admirar e tratar algo que vive no passado, mas que já não existe mais, não é algo saudável. Obrigada, Deus, universo, cosmos, galáxia, por ter sobrevivido a mais um ano.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Afinal, o que é o termo Liberdade para aquela mulher na rua que grita com cartazes e sangue nos olhos naquela foto estampada nos jornais e revistas do último domingo

E para aquelas que não foram fotografadas mas sentem seu grito representado,
E para aqueles que se reconhecem acima se tudo, 
seres humanos [?]
De início, vamos fazer uma viagem no tempo até a Grécia Antiga, uma das sociedades passadistas em que o homem mais desenvolveu diversas áreas do conhecimento, técnicas mais aprimoradas de sobrevivência, enfim, foi um ápice de descobertas. A área da política era muito bem vista, e quem tivesse o discurso mais bem falado na ágora, teria prestígio na vida social. Pra se ter uma ideia, a ágora era uma praça em que todos os moradores gregos conversavam sobre os assuntos considerados mais importantes da época: Política e Filosofia. Aí é que está o ponto em que quero chegar, em nenhum momento estudei sobre mulheres filósofas muito menos políticas, dessa época. Não existe "pré-socráticas", muito menos pós. Pitágoras, Parmênides, Sócrates, Platão, Aristóteles. Todos homens. As mulheres, juntamente com escravos e estrangeiros, eram proibidas de votar. Ué, uma grega proibida de votar na própria terra de origem? Pois é, isso comprova o fato de que o ser humano ter nascido com uma vagina, já era condicionado a não ter acesso a conhecimento ou oportunidades, pois era considerado um ser inferior. Certo, vamos pra Idade Média agora, época em que a Igreja mandava e desmandava nos pensamentos e costumes humanos, além dos seus feudos. A partir daí, a mulher passa a ser vista como algo idealizado, no sentido de santa, para ser bem vista socialmente deve se comportar como um ser intocável, ingênuo e ter como objetivo de vida cuidar do marido e da casa. Veja, esse objetivo era imposto, portanto a mulher não tinha a liberdade de escolher seu futuro, era tratada como mercadoria, já que a família escolhia o seu marido avaliando como critério principal a quantidade de feudos que sua família possuía, e faziam acordos com corpos, com uma simplicidade incrível. Ah, mas ambos os gêneros eram obrigados então, não era especificamente a mulher que devia seguir os padrões. Só que não. No quesito sexo, a mulher não podia demonstrar prazer algum, já que o pensamento religioso da época dizia que isso era pecado, e que se demonstrasse era vista como algo promíscuo -uma bruxa pronta para ser jogada na fogueira, um animal pronto pro abate- e não como uma condição biológica de qualquer ser humano. Além do que, o homem, na maioria dos casos, podia trair sua esposa com quantas outras ele quisesse, e não seria mal visto socialmente, ou poderia bater nela quantas vezes quisesse, e não seria mal visto socialmente, ou poderia obrigá-la a fazer sexo quantas vezes e na hora que ele quisesse, que não seria mal visto socialmente. Concluindo, o sexo feminino não tinha liberdade sexual, social e muito menos de expressão. Sem falar na Idade Moderna, em que a mulher negra, além de ser tratada também como uma mercadoria, era submetida a castigos físicos e abusos psicológicos. Então a partir daí, a mulher passa a ser julgada por dois fatores principais: nascer com uma vagina e ser negra. Elas só tinham um direito: a de ficar calada e aceitar tudo que lhe era imposto. E esse direito se repete até a sociedade atual. Sim! Ainda existem bilhares de mulheres que reproduzem, muitas vezes inconscientemente, uma única realidade de vida que lhes é apresentada: a de se casar, ter filhos e se dedicar à casa e ao marido, visto como a figura "chefe", deve ser o único que trabalha e contribui financeiramente com a casa. Isso também é um peso que enraizou na cultura brasileira por influência da religião principalmente, e que joga em uma só pessoa -no homem- uma bagagem grande de expectativas que devem se tornar realidade em um curto espaço de tempo: ter o emprego, a família e o carro dos sonhos, além de não poder demonstrar fraquezas ou sensibilidades emocionais. Caso contrário é rotulado de alguém que falhou e não tem conserto, uma mancha para o brazão da família em que foi criado. A questão de carga de trabalho, tanto o doméstico quanto o externo à casa, deveria ser dividida para ambos os sexos, por questao de equilíbrio e não sobrecarregamento, o que contribui para saúde mental de ambos envolvidos. Portanto, o que é a liberdade para a mulher, que deveria ter o mesmo significado do que é para homem, que na verdade deveria servir pra todo ser humano existente como passageiro nessa terra? É ter ampla visão do leque de opções  que ela pode escolher viver, desde dona de casa até qualquer outra profissão. Que possa competir com o homem, ambos a partir de um mesmo patamar, e tornar em extinção casos em que ela recebe menor salário ou tem a chance diminuída de ter o currículo escolhido, devido a justificativas como o fato de ela menstruar ou engravidar-  porque desse modo sua eficiência no trabalho é diminuída, certo? Errado!! Não se deve colocar como categoria para seleção de emprego condições biológicas, sem olhar para a experiência profissional da pessoa. Isso é só um exemplo de milhões de outros, de como a seletividade por sexo é um pré-requisito para trabalho. São diversas as mulheres que têm se encontrado, que reconhecem a sua liberdade, que percebem que o que mais desejam é visto como algo tão absurdo: viver sem se sentir ameaçada pelo simples fato de ter nascido com uma vagina, que não passa de um órgão, e que nunca deve ser um fator condicionante de algo, seja ter que usar sempre rosa, e passar a infância brincando de bonecas e panelinhas, e a adolescência e a vida adulta vivendo sob as custas sexuais e psicológicas impostas pela sociedade como um todo. É como se tivesse uma faixa nos olhos de homens e mulheres que acabam reproduzindo a parte opressora da cultura antiga, medieval e moderna, e tornam "normais" certos costumes que objetificam a mulher, as banalizam. Não estou falando em excluir opções, quero ampliar realidades. A tão almejada Liberdade procurada pela mulher não limita, ela procura fazer com que a sociedade e a mulher em si, reconheça-a como algo recitado pelas sábias palavras da cantora Nina Simone "Liberdade, para mim, é não ter medo".

sábado, 8 de julho de 2017

O mito do Homem Branco Superior ainda supera Papai-Noel e Fada do Dente

Lendo um trecho de um livro de história, me deparo com a informação sobre a descoberta de um esqueleto fóssil feminino, considerado o mais completo da família do Australopithecus, em 1974, encontrado na Etiópia, país africano. Então, a "comunidade" científica escolhe colocar o nome do fóssil de Lucy, para homenagear uma canção dos Beatles, que na época faziam sucesso "mundial", vulgo no hemisfério Ocidental. Resumindo: o fóssil foi encontrado em território africano e a homenagem é a um produto cultural ocidental, mais especificamente da cultura inglesa. Esse fato é uma constante que muda de fantasia de tempos em tempos. Lembrando da prática do imperialismo, em que países desenvolvidos se consideravam culturalmente e economicamente superiores a países principalmente orientais, esse acontecimento recente mostra que ela ainda prevalece e contribui a uma maior idolatria à cultura ocidental. Os países de grande poderio invadiam e viravam parasitas não só de matérias-primas, como também do sentimento de nação, de continentes asiáticos e africanos, mandando e desmandando em suas terras e em sua cultura, afinal, para conseguirem seus lucros, tinham que fazer com que o consumo, por parte dos habitantes, fosse de seus produtos culturais, causando milhares de conflitos étnicos e religiosos. Essa ideia de associar o que é "legal"/moda a algo americanizado, é fruto do imperialismo. A manipulação dos gostos musicais, cinéfilos e culinários tem sido da autoria de países desenvolvidos que acabam tendo sucesso, não pelo poderio bélico, mas por influência de fatores econômicos e -principalmente- midiáticos, dos famosos meios de comunicação. Por que, no meio musical, as bandas americanas estão estampadas em outdoors reais ou virtuais, enquanto bandas holandesas, russas, africanas, indianas e egípcias, possuem como maior parte do público, específico de seus locais de origem? Por que, a minoria (do Ocidente) que se interessar por elas, é considerado como alguém que tem um "gosto peculiar"? E por que, no meio cinematográfico, mais uma vez, em sessões de cinemas, o catálogo está sempre lotado de filmes principalmente americanos e ingleses, e não com uma distribuição uniforme de origens diversas? É como uma venda manuseada pelas potências mundiais: o indivíduo só vê o que Elas deixam, não mais que isso, e o diferente acaba sendo associado a algo ruim, estranho. O ritmo lento de filmes franceses, por exemplo, acaba sendo considerado cansativo pelo público ocidental que está acostumado com cenas rápidas da maioria dos famosos filmes americanos, e seu conteúdo acaba sendo ignorado. Se não é consumido, não dá lucro, portanto é descartado da vitrine de opções culturais vendidas pela mídia. O termo "Opções" é bem incorreto, considerando que nossas escolhas não são bem nossas, na verdade são controladas pelos grandes "chefões" e aqui começa a grande discussão de Indústria Cultural, que é só mais outra constante na sociedade contemporânea, mostrando que, enquanto a sociedade progride em certos pontos, em outros, involui, caminha para o lado contrário de vários modos, seja ignorando Adorno e Horkheimer, seja tentando julgar produtos pela sua etnia e não pelo conteúdo. Evolução é algo realmente relativo.

sábado, 1 de julho de 2017

O esquisito chamado de Amor

Velhos hábitos nunca mudam
não adianta, amor
tentar remendar os rasgos dessa roupa
com laços folgados que deixam os buracos
entrelaçados e escondidos
permanece a mesma camisa antiga
com perfumes que embaçam os mesmos erros
o odor continua
mais uma vez
berros são resolvidos com a palma da mão
berros são resolvidos com a altura da voz
cadê tua voz
ele grita
ela tapa os ouvidos
costurando a própria boca
se enche de panos entre os dentes
ao deitar-se toda noite
sussurra
pro mundo calado
a oração de cada dia
"Tudo em nome do amor"
E esse tudo é seu carrasco
e não mais o esquisito que usa trapos velhos
ela é sua própria foice
ela está com a pena na mão, a sentença é de sua autoria
"Mil desculpas, paixão!
quebro-me em mil pedaços, mas me devolve a tua mão!"
Ela não ouve mentiras
mas sua vida (que vida?)
é uma perfeita ilusão
marionete guiada por mãos
de um corpo cujos olhos estão feridos
Ao cair pela centésima vez,
de joelhos ao chão
lava as roupas do esquisito
e tenta, fervorosamente, tirar o cheiro de orgulho
quer
por mais que tudo
tapar os buracos negros profundos
e tenta novamente
e falha novamente
mente falha a do ser humano
mal sabem que não se limpa com sal ferida infeliz
não se muda alguém como se compra cabides
não se desfaz um quebra-cabeça que está emoldurado
e mais uma vez
o buraco é tapado, outra mentira renasce
e ela cai em desespero
em silêncio! Se não acorda o esquisito
codinome: Amor.
Pela centésima primeira vez ela cai
dessa vez empurrada pela voz de seus pensamentos
"Queremos sair!"
E a Liberdade pede carona, sem volta
com destino da boca pra fora
e da boca do esquisito
veneno
disfarçado de abrigo
e ela bebe do seu vinho, pela milésima vez
mas a Liberdade não quer saber,
luta contra correntes e demônios internos
quer viver!
Ela olha pra dentro, e sente o céu negro
seus olhos de repente
reparam o vulto que chama de Amor
e ao invés de lágrimas, guarda-chuvas em seus olhos
sua arma torna-se a palavra
e a sua retirada do círculo sem fim do esquisito
tira-lhe do caminho um futuro vestido de velhos erros
e a sua vida finalmente, tem um início
enfim

terça-feira, 11 de abril de 2017

23:43
O relógio que antes tocava pontualmente
pifou
Mas suas peças estavam intactas,
Pifou
É que a voz disse ontem mesmo
Que tudo ia ficar bem
Que era pra eu ficar bem
Que o relógio tocaria
Quando a hora chegasse
E suas palavras eram como chamas acalentando os dedos de um pequeno peregrino camuflado
numa tempestade de nevasca infinita
Dançavam com o frio
Remendavam os buracos daquele corpo esburacado
Daquela alma montanhosa com túneis horrendos pelos meios
Suas palavras eram travesseiro para meu esqueleto enferrujado
baldes d'água quando eu era semente enterrada
Eram fonte quando eu era náufraga
Eram régua para minha dor
E sabiam desarmá-la
Só elas sabiam como
Sabe lá céus como
Mas o relógio não tocou
E teu silêncio era mais cortante que uma palavra
mau
dita
23:43
Meus olhos aflitos
Fitam o que não vai acontecer
Criam sons da chegada esperada
Remoem, reviram, desabam
Levantam-se
E escutam
Uma fábula cabulosa
E o relógio não tocou
E ele não mais soou em desacordo com a minha sagaz arrogância
Minha estupidez humana
Ficou no meu olimpo secreto
Acabei dentro do espelho
da rainha da branca de neve
Engoli minha vaidade
Não enfrento minhas criaturas
Não encaixo nas molduras
Não sirvo nesse corpo quadrado
Meu sol nem forma tem
Sou cega a minha verdade
Subornei a minha liberdade
E agora pago pelo que nunca tive
Pago pelo que esperei
Pago em nome do meu Olimpo das Ilusões
Criei uma peça mau escrita
E em vez de andar por linhas tortas
De repente não mais tinham linhas
E eu desejei a tua face torta
Por segundos infinitos
Que face?
Teu recuo a me enxergar
Criam sombras duplas
escurecem tua boca
Tua voz desaparece
Tua seca me confunde
Teu silêncio cala meu socorro
Coroei a minha falsa liberdade
Que é amar o que foi perdido
Que é amar o que não foi dito

segunda-feira, 10 de abril de 2017

É uma dor sombria
chega de fininho nos becos sombrios da minha mente
chega fazendo bueiros
chega quebrando, um por um,
teclado por teclado
do meu piano
que fazia sons
inaudíveis a todos
mas eu os escutava
às vezes eram gritos
às vezes eram uma orquestra sinfônica
digna de um maestro astuto,
sabia bem os tons que desenhava no ar
com suas mãos de pincel
criava alfabetos como ninguém mais criava
pintava cores invisíveis falantes
era um espetáculo
com dias contados
Ah, mas lá fora era outra história
eram ecos tolos que ficavam de prontidão
o meu copo, que apresentava uma fina
finíssima rachadura
continha um oceano raso, calmo até
a dor chega, faz redemoinho com minhas águas
faz-me engolir sal
faz-me afogar em lágrimas
a dor não me deixou respirar
nem o último suspiro me deixou dar
se colocava a desdenhar
Até que um dia, na beirinha da mesa da escrivaninha
o copo é empurrado
meu corpo
é empurrado
Cai
Caí
a dor vai embora
os fragmentos cortam, sangram
mas a dor se foi
se foi
e com o tempo, eles se retomam
os fragmentos são juntados
com cola de sapato
sem jeito, assim como quem
bota café no fogo numa tarde
pra um desconvidado qualquer
sem jeito, o copo é refeito
sem jeito ele vira copo de novo
e o maestro já se prepara para os aplausos
de um novo espetáculo
onde o público se vestia de vermelho
se vestia de cortina
era um espetáculo

segunda-feira, 20 de março de 2017

Toc toc

Fantasmas que se esgueiram
silenciosamente no fundo do meu quarto
fazem de sofá o meu ouvido
fazem barulhos de palavras
minha mente os escuta,
repetem o que escolhi esquecer
de repente estou colhendo espinhos
é difícil
sangra, dói
as lembranças de um passado esquisito
esquecido, encardido
retiram o lençol empoeirado
que um dia pus lá
cospem em mim
a ilusão
de que um dia os queimei
toc toc
fantasmas
zombando dos meus planos escritos em tábulas rasas
me fazem curvar diante de um rosto
que já não pertence a mim
esse, já morreu.
fantasmas, riem
me abanam com os rasgos
dos papéis do lixo
que um dia joguei
e sem querer guardei
o lixo, camuflado de baú
não era o que eu pensei
fantasmas me arrodeiam
minha lembranças são hostis
vão embora!
de porta a fora
toc toc
quem é?
Presente.
Até que enfim.

A arte da guerra silenciosa Mover-se em prol de interesses, é natural. Considerar tempo, custo e benefício antes de tomar decisões, é insupo...