quinta-feira, 29 de março de 2018

O significado de felicidade que não se lê em dicionários e guias espirituais

O que dizer aquele
Que ao nascer colocam
sobre suas mãos
pequeninas e gordinhas
Um isqueiro
Ao invés de uma manta quentinha
E dizem
Queime livros!
Ascenda cigarros!
O pódio da vida é o escarro!
Foi assim que lhe ensinaram
É preciso sofrer pra ir de encontro
à felicidade
Num bistrô bonito
De paletó fino
Hora marcada e tudo
É patamar por onde não se sobe,
Se desce por um abismo
A felicidade é cara meu filho
Sua mãe dizia
A felicidade é bilhete de telecena premiado
0,1 em 1 bilhão de possibilidades
Eu não tive que estudar menino
pra saber
Que a felicidade é seletiva
Usa bengala e arco e flecha
Só não usa meio termo, essa danada!


domingo, 4 de março de 2018

A saudade é uma dama

Uma dama de vermelho vestida de véu preto que chega devagar, silenciosa que nem névoa em bosques longínquos, muito longe de embaçar, ela esta pronta pra mostrar o que ninguém enxerga e lembrar o que todo mundo esquece. Ao redor estão rostos que parecem espelhos que refletem luzes, algumas sao brilhantes, outras são como candelabros, quase penumbras, e outras são como ceras que beiram pratos metálicos gelados, em um dia frio, com uma pontinha preta fina no meio de vela, ainda assim acesa. Ao redor do lago azul de olhos tristes, encontram-se linhas, rugas de cenas que jamais serão vividas de novo. A rotina já não é aquela velha amiga, e a chegada das luzes são convidativas, nostálgicas. A saudade já não é aquele velho sentimento de fins de semana, de dias que contamos nos dedos. Ela vem em forma de anos, como uma encomenda grande e gorda, onde na embalagem é grafado em caligrafia itálica, pairando ar de delicadeza: dias a menos. Dias a menos. Dias a menos pra um jantar num restaurante, dias a menos pra um encontro marcado, dias a menos pra vê-los. Dias a menos para não vê-los. Dias a menos. Por que a ambiguidade habita em cada canto que nos encostamos? Aquela mesma estação de ônibus que vai trazer o seu amor, vai levá-lo embora. Aquela mesma casa que guarda as luzes, e que fica tão cheia e tão viva em questão de segundos, vai ser invadida pelo vazio em questão de dias a menos. Pois é, o tempo é rei e carrasco em terra de saudade. A saudade é dama de vermelho e véu preto em terra de dias a menos. Tinha dias que a rotina era um caco de vidro no pé, em outros era um mal necessário. Mas sempre que o laço da rotina quase ia sendo cortado, a saudade chegava rasgando cada traço de tentativa de fuga. A memória beijava todos os dias seus olhos, e não a deixava em paz. Não queria mais cartões postais, telegramas ou fotografias, cuja beleza enfeitiçava a saudade. A beleza vindo em porções pequenas, ainda assim engana. Mas não sacia. Não sacia a vontade do sentir o cheiro, de ver o olhar de manhã cedo, de escutar assobios e cantos misturados aos sons dos passarinhos. De viver o momento e não a distância. A saudade é aquele copo de café preto em xícara de cor meio caramelizada, meio queimada, de gosto meio amargo, meio seco, que ao entrar na garganta queima. Mas o cheiro, ah! O cheiro encanta qualquer nariz aberto a odores shakesperianos. É cheiro de tempo e de saudades, de Reis e Carrascos. De livros mau lidos, bem lidos, antigos, rasgados, queimados, escondidos, perdidos, achados, deixados na cabeceira de lado, deixados no fundo da gaveta cobertos de poeira, terceirizados, lambidos, cuspidos, beirando a linha do trascedente, beijados. As saudades são as botas batidas do Judas, que vez ou outra são encontradas trazendo chulés, vez ou outra sendo abrigos à pés que andam como espinhos em estradas de barro.

A arte da guerra silenciosa Mover-se em prol de interesses, é natural. Considerar tempo, custo e benefício antes de tomar decisões, é insupo...