domingo, 26 de fevereiro de 2023

alguma coisa parecida com uma oração

 


💟

eu entrego ao mistério

minhas certezas 

minha descrença no outro

e minha descrença na vida

já não me cabem mais



que eu não me atente ao que só me trás falta 

ao que nunca vem e nem vai, não quero

de mediano ou incerto já basta uma parte de mim


que eu me atente a querer estar com o que me trás presença

 que haja entrega e despedida ao momento

que eu saiba me demorar no agora sem me perder no outro


que a hora da minha decepção demore

e que não aconteça por tudo

porque nem tudo merece minha atenção 


 

que eu entenda que a tentativa é uma via de mão dupla

  e que eu consiga encontrar a força e a confiança em algum lugar

que um dia escondi de mim mesma

💟

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

Em nome do meu amor por mim

Em nome do amor fica fácil fechar os olhos e ouvidos para o que está sendo feito ou dito. Em nome do amor, o peso das tentativas fica mais leve. Até o momento que você percebe que está cambaleando. Sozinha. São escolhas em nome do amor, ainda que o papel seja o de enganar a si mesma. Papéis solos são para os que estão dispostos a dar a cara a tapa mas nem sempre existirá essa disposição. Eu escolho entender a decisão do meu amor de não fazer mais questão nenhuma de mim. Eu escolho não dar a minha cara a tapa. Não porque ele não merece, porque ele merece sim todo o amor que existe nesse mundo. É só porque dói em mim desejar o que não posso ter. Não quero ter que aprender a conviver com mais uma dor, afinal eu não sou uma colecionadora de dores. Existem momentos que nos forçam a escolher quais feridas inevitáveis teremos disposição em remediar.  Não dá pra deixá-las sangrando.


Me apaixonar foi sim inevitável. Não continuar alimentando esse sentimento é uma das poucas escolhas que evito mas não posso. Não devo. Valorizarei uma das poucas liberdades que tenho em mãos, em nome do meu amor por mim. Não é que eu esteja escolhendo não me apaixonar de novo por você, eu estou escolhendo não me machucar por mim mesma.




E não acho que haja mal em idealizar alguém. É enxergar com os olhos, os ouvidos e a boca o lado mais bonito da outra pessoa. Mas como tudo demais é veneno, idealizar  também é. Talvez a solidez das relações esteja na presença mútua e nem sempre compassada da tentativa de equilibrar realismo e idealização sobre o outro e porque não sobre a vida? 

Nossas faces mais sombrias existem e devem ser nomeadas. As máscaras devem cair mesmo que sem querer, quando estamos juntos de quem amamos. Ao contrário disso, machucará a si e ao outro. Aprender a conviver com as próprias sombras sem deixar de assumi-las para quem confiamos e nunca permitir que elas se estendam como manto para o outro, porque isso não seria justo. Não se deixar ser consumido pelas sombras é algo mais difícil de se fazer.

Acho que não cheguei a falar exatamente o quanto eu me importo com você. Hiperidealizei que você subentendia que eu faria qualquer coisa por você. Mas acho que te assustei com as minhas ações, porque até o que estava fora do meu alcance eu tentei fazer pra te mostrar o que tava dentro de mim. Ainda me pego às vezes pensando nos momentos que falei de menos e demais, quando era só pra eu falar o que sentia. A minha racionalização passou do ponto e virou delírio. Você merecia mais do que um delírio.

Às vezes uma distração é a única coisa capaz de ocupar um buraco que insiste em ser tapado com um significado inventado, ainda que por hora. "Incompreensivelmente verdadeiro mas eterno". Talvez o que foi ou é verdadeiro não deva ser compreendido e muito menos eterno. Pode existir num piscar de segundos, minutos, horas, dias, meses, anos. Até não existir mais. E tudo bem porque isso não significa que foi uma mentira, e sim que acabou. Transformou-se em outra coisa. 

Acho que o nosso amor durou segundos algumas vezes. Não acho que sou louca o suficiente pra inventar isso, não acho que me apaixonei sozinha, a não ser que você dissesse em voz alta isso olhando nos meus olhos. Só isso pra me fazer mudar de opinião. Esperei pacientemente você me atravessar e ir embora, mas permaneceu e nem sabia. Permaneceu em mim, não por querer, não pedi isso, aconteceu. E acabou, embora não ter uma resposta direta ainda me doa.

Contínuos sopros de tentativas de enxergar beleza na própria solitude em meio a centenas de milhares de pessoas, é pra onde minha atenção vai ser sustentada de agora em diante. Antes estava voltada para o que há de pior em mim, para o que nunca vou viver e para o que ainda não vivi. Mas agora não. Preciso mais do que nunca ser meu par nessa dança, porque sozinha eu não aguento. As minhas sombras vão ser minhas lanternas e meu esconderijo, pra quando eu sentir vontade de fugir do mundo e de mim mesma. 

Não vou me desculpar por sentir, muito menos por ter me apaixonado. Peço desculpas a mim por ter me atentado mais a profundeza de um vazio, do que aos contornos. Tentarei reconstruir meus contornos, para me fazer segura de mim. Não do que não posso controlar, só de mim.  Eu serei o sinal de segurança que achei no outro.



terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Tentativa de não tapar o buraco com peneira

É fácil acreditar na autossuficiência do amor porque ele é abundante e generoso. Inabalável. Ele é sim, tudo isso e mais um pouco. Mas ele nunca vai ser autossuficiente para fins egóicos. Nem por isso deve ser considerado um erro ou mentira. O problema é quando fazemos do amor uma bengala para sustentar nossas inseguranças. O problema é querer imprensá-lo num formato que não vai caber. Não adianta, ele é grande demais. Cortamos suas asas quando passamos a querer controlá-lo, querer que ele se ajuste aos nossos desejos, mesmo quando muitos já foram atendidos. Porque sempre vamos querer mais. Mais provas, mais demonstrações, mais sacrifícios. 

Graças a bola de cristal chamada algoritmo do instagram, assisti a dois vídeos curtos de dois episódios de duas séries que gosto muito,episódio  6 da 2° temporada de Fleabag e episódio 5 de The Midnight Gospel, entre a tarde e a noite de uma quarta-feira de cinzas. Um que termina afirmando que o amor parece esperança e o outro sobre o desapego da esperança. Cheguei na conclusão que amor é um paradigma cuja forma de sentir está em constante mudança. Existem várias formas de sentí-lo. 





Amor é dar e também receber mas esse receber nem sempre vai vir na forma que desejamos. Ele não existe para nos servir. Diferentes mundos, diferentes linguagens, diferentes atmosferas, diferentes espaços de tempo. Existem coisas que fogem ao nosso controle.

Amor não é controle, é desapego da expectativa que colocamos no outro e apego somente no agora. Não para evitar se machucar, mas para reduzir a dor das quedas e o tempo que leva pra levantar de novo. Não é sobre se entregar de menos e sim sem se perder de si. Mas e quando a gente se perde? Acontece, tá fora do nosso controle. É necessário escoar tudo o que essa falta de controle causa para lugares que nos relembrem quem somos, ainda que outras partes tenham sido mortas foram transformadas.


sábado, 11 de fevereiro de 2023

 Quando as coisas começam a finalmente assumir um formato que caiba o tamanho do desespero de viver sem se sentir perdida dentro de si, resquícios impossíveis de serem retirados apenas com mudanças repentinas persistem em existir. Vão embora! Sim, não te esquecer é um erro que vive na forma de resquícios. É um teste. Tem que ser. Um teste que me assombra com questões que não possuem respostas simples. Até que ponto posso crer numa ilusão e o porquê disso? Porque não consigo persistir em acertos da mesma forma que persisto nos erros? Não me amo o suficiente para compreender a completa falta de retorno a algo que tentei me doar? Ou me amo tanto a ponto de imaginar uma reciprocidade com o lado mais bonito e sombrio de alguém que tentei compreender?

Sentir e supor roupas para silêncios é encantador e na mesma medida, horrendo. Quando menos você perceber vai estar enfeitando uma dor gritante, e com que direito? 

Eu sinto muito ter me apaixonado e não ter sido corajosa o suficiente pra poder falar. E ainda assim, seria uma mentira dizer que não tentei.

A falta de palavras já não me enche mais o coração. Não posso me dar o infortúnio de desejar o que não mereço. E talvez os resquícios persistem em existir porque eu tenho que dar forma, nome e poesia ao que mereço. 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

 🌱

pequenas obsessões parecem ervas daninhas

se não podá-las

é capaz de se transformarem em plantas carnívoras

que engolem seu ego por completo

e te deixam sozinha

não na própria presença

sozinha

🌵

A arte da guerra silenciosa Mover-se em prol de interesses, é natural. Considerar tempo, custo e benefício antes de tomar decisões, é insupo...