Em nome do amor fica fácil fechar os olhos e ouvidos para o que está sendo feito ou dito. Em nome do amor, o peso das tentativas fica mais leve. Até o momento que você percebe que está cambaleando. Sozinha. São escolhas em nome do amor, ainda que o papel seja o de enganar a si mesma. Papéis solos são para os que estão dispostos a dar a cara a tapa mas nem sempre existirá essa disposição. Eu escolho entender a decisão do meu amor de não fazer mais questão nenhuma de mim. Eu escolho não dar a minha cara a tapa. Não porque ele não merece, porque ele merece sim todo o amor que existe nesse mundo. É só porque dói em mim desejar o que não posso ter. Não quero ter que aprender a conviver com mais uma dor, afinal eu não sou uma colecionadora de dores. Existem momentos que nos forçam a escolher quais feridas inevitáveis teremos disposição em remediar. Não dá pra deixá-las sangrando.
Me apaixonar foi sim inevitável. Não continuar alimentando esse sentimento é uma das poucas escolhas que evito mas não posso. Não devo. Valorizarei uma das poucas liberdades que tenho em mãos, em nome do meu amor por mim. Não é que eu esteja escolhendo não me apaixonar de novo por você, eu estou escolhendo não me machucar por mim mesma.
E não acho que haja mal em idealizar alguém. É enxergar com os olhos, os ouvidos e a boca o lado mais bonito da outra pessoa. Mas como tudo demais é veneno, idealizar também é. Talvez a solidez das relações esteja na presença mútua e nem sempre compassada da tentativa de equilibrar realismo e idealização sobre o outro e porque não sobre a vida?
Nossas faces mais sombrias existem e devem ser nomeadas. As máscaras devem cair mesmo que sem querer, quando estamos juntos de quem amamos. Ao contrário disso, machucará a si e ao outro. Aprender a conviver com as próprias sombras sem deixar de assumi-las para quem confiamos e nunca permitir que elas se estendam como manto para o outro, porque isso não seria justo. Não se deixar ser consumido pelas sombras é algo mais difícil de se fazer.
Acho que não cheguei a falar exatamente o quanto eu me importo com você. Hiperidealizei que você subentendia que eu faria qualquer coisa por você. Mas acho que te assustei com as minhas ações, porque até o que estava fora do meu alcance eu tentei fazer pra te mostrar o que tava dentro de mim. Ainda me pego às vezes pensando nos momentos que falei de menos e demais, quando era só pra eu falar o que sentia. A minha racionalização passou do ponto e virou delírio. Você merecia mais do que um delírio.
Às vezes uma distração é a única coisa capaz de ocupar um buraco que insiste em ser tapado com um significado inventado, ainda que por hora. "Incompreensivelmente verdadeiro mas eterno". Talvez o que foi ou é verdadeiro não deva ser compreendido e muito menos eterno. Pode existir num piscar de segundos, minutos, horas, dias, meses, anos. Até não existir mais. E tudo bem porque isso não significa que foi uma mentira, e sim que acabou. Transformou-se em outra coisa.
Acho que o nosso amor durou segundos algumas vezes. Não acho que sou louca o suficiente pra inventar isso, não acho que me apaixonei sozinha, a não ser que você dissesse em voz alta isso olhando nos meus olhos. Só isso pra me fazer mudar de opinião. Esperei pacientemente você me atravessar e ir embora, mas permaneceu e nem sabia. Permaneceu em mim, não por querer, não pedi isso, aconteceu. E acabou, embora não ter uma resposta direta ainda me doa.
Contínuos sopros de tentativas de enxergar beleza na própria solitude em meio a centenas de milhares de pessoas, é pra onde minha atenção vai ser sustentada de agora em diante. Antes estava voltada para o que há de pior em mim, para o que nunca vou viver e para o que ainda não vivi. Mas agora não. Preciso mais do que nunca ser meu par nessa dança, porque sozinha eu não aguento. As minhas sombras vão ser minhas lanternas e meu esconderijo, pra quando eu sentir vontade de fugir do mundo e de mim mesma.
Não vou me desculpar por sentir, muito menos por ter me apaixonado. Peço desculpas a mim por ter me atentado mais a profundeza de um vazio, do que aos contornos. Tentarei reconstruir meus contornos, para me fazer segura de mim. Não do que não posso controlar, só de mim. Eu serei o sinal de segurança que achei no outro.