quarta-feira, 18 de setembro de 2024

A arte da guerra silenciosa Mover-se em prol de interesses, é natural. Considerar tempo, custo e benefício antes de tomar decisões, é insuportável e essencial para se adaptar. Buscam-se os meios que demandam menos energia para atingir-se um fim. Aprender a ser política é uma forma de alcançar isso, principalmente em grupos onde cada pessoa apresenta diferentes pretensões - explícitas ou implícitas. Se adaptar a dinâmicas dentro do meio laboral, exige o semblante da estátua grega da deusa da Lua, Selene - compassiva, amistosa e gentil. Sucedido a isso, um corpo armado de uma guerreira amazona. Não enxergar a agressividade em movimento não significa sua ausência - está velada pela complacência inerente à natureza da estátua e supostamente da natureza feminina. Wounded warrior. Fonte: https://www.worldhistory.org/image/1163/wounded-amazon/Tem validade o mistério de como, quando e onde a raiva será utilizada. Exercê-la irá variar de acordo com o gradiente entre ataque e legítima defesa. Seguir o princípio da Lei de Talião é questão de tempo. Penthesilea, rainha Amazona, luta com Achilles. Fonte: https://www.theguardian.com/science/2024/mar/24/truth-behind-the-myths-amazon-warrior-women-of-greek-legend-may-really-have-existedLuta entre Amazonas e Gregos, no Mausoléu de Halicarnasso, na Turquia. Fonte: https://www.tumblr.com/paganimagevault/698703396223500288/amazonomachy-frieze-at-the-mausoleum-of?source=shareNão basta comunicar apenas o fundamental e estar a disposição do outro ao assumir uma postura introvertida. Não é socialmente convidativo a ausência de carisma, principalmente se você é forasteira e mulher. Faça um trabalho ruim ou meia boca e isso será apontado. Faça um bom trabalho, e sua gentileza será exaltada. Muito maior do que o interesse de alinhar-se em prol de um benefício - ou alvo - em comum, às vezes o principal confronto é com o desejo do outro sentir-se no controle de você. Diante de um desaforo educado, responder um "não" mal educado implicará em punições desproporcionais sob o pretexto de ruína da razão. As lentes, antes de gentil, agora pintam um quadro de arrogância, prepotência e estrelismo. Bust of a Perspehone - 5th c.BC.Primeira regra do jogo: nunca confiar em elogios. A maioria é da boca para fora, utilizados como moeda de troca. Segunda regra do jogo: frivolidade diante do desconhecido. Nunca subestimar o estrago que egos não inflados podem fazer. Terceira regra do jogo: não esperar reconhecimento - vem devagar, e vai rápido. O reconhecimento de um bom trabalho pode ir por água abaixo caso assuma uma posição contra algo que a maioria estava a favor ou não liga. Essa será a impressão que fica. Luta entre Amazonas e Gregos, no Mausoléu de Halicarnasso, na Turquia. Fonte: https://www.tumblr.com/paganimagevault/698703396223500288/amazonomachy-frieze-at-the-mausoleum-of?source=shareCada um escolhe a arma que melhor adequa-se ao que é ético e moral para si. Persuasão, unilateralidades, distorções, encostos, a imunidade do topo da hierarquia. Os discursos passam a ser atravessados e beiram o irracional: muda-se de opinião para atingir um interesse próprio, ainda que imediato e temporário, não importa às custas do que, de quem e para que. De repente, não tem mais lados escolhidos, não há aliados. É sobre um jogar o outro contra o outro. Alimenta-se então um sistema pactuado em silêncio que serve aos que não estão dentro do campo de luta. A construção mútua de pensamento e honestidade, aos poucos desaparece. A passivo-agressividade e hostilidade inebriam a atmosfera. Arte por Seyo Cizmic.Até que lentamente, surgem mãos que desenham no chão de terra uma linha, a fim de que o outro finalmente compreenda a mensagem: aqui não. A maturidade leva a reconhecer limitações, qualidades e habilidades a serem desenvolvidas. Deve-se buscar uma comunicação assertiva da mensagem, que não cause dúvidas em relação ao objetivo traçado. Ao ser porta-voz de um conhecimento que se transforma com o tempo, é necessário apegar-se a rigorosidade metódica do cuidado da prática e desapegar-se da insegurança e falta de autoconfiança. Saber quando não justificar, responder com ação bem respaldada e escolher as próprias batalhas - algumas já são declaradas perdidas antes mesmo de acontecer - é tão relevante quanto dominar um ofício. Organizar a agressividade para as batalhas certas, muito menos do que ceder a ameaça ou subestimação. Xilogravura feita por Ariano Suassuna.Para cada entrave formidável com oponentes não tão formidáveis, almeja-se a essência da configuração de um sistema de fechaduras que abre no sentido anti-horário: é instintivo, perspicaz e engana malandro.

quarta-feira, 4 de setembro de 2024

 Já fui em várias apresentações de música sem ler quaisquer informações antes, na esperança de ser surpreendida. Existe uma fé que ocupa o mistério de deixar-se levar pelo coração sem criar expectativas, que nos leva a lugares bonitos. Ela habita também o nascer de uma súbita coincidência da facilidade de escolher e ser escolhido de volta. Difícil mesmo é não se apaixonar pelo outro sendo quem ele é. Inevitável é não se esconder entre seus cachinhos, riso e fonemas. Sentir um par de olhos repousando sobre os seus ao dormir. Descobrir que há evento mais violento ao tempo do que um acelerador de partículas subatômicas: o entrelaçar de mãos. Ter a própria miopia estendida a olhares esquisitos de fora, porque pasmem, você ganhou na loteria uma fonte inesgotável de beijinhos. Observar sua paciência ao conhecer sua trouxinha meio pesada de medos e inseguranças antigas. O carinho e a coragem cura o medo que paralisa, e você sequer teve que fazer o pedido encarecido de: por favor, me ame direito.

Nos entraves do cotidiano, a maturidade ajuda a lidarmos com as consequências de escolhas, a manejar dores e torcer para não sucumbir a uma apatia diante de derrotas e sentimentos de insuficiências e inseguranças: se a semana teve altos, baixos e médios momentos, considera-se estar no lucro. E nesse manejar diário às vezes com sorte, surge alguém para se compartilhar a vida.

Ainda não há política de redução de danos que dê conta de reparar o buraco que se forma no coração quando alguém vai embora. Mas maior que a tristeza da perda é o amor pela liberdade do outro.

O morno e as migalhas não tem espaço para o tamanho da generosidade do amor: ele só é. E ainda que não seja verbalizado, pois por vezes ocupa gentilezas e silêncios que sentem saudade do cheiro do outro: porque quero, não porque preciso.

Que leve o tempo que tiver que levar: conseguir compreender o que você sente e comunicar sua certeza ao outro, vale a pena.

Amar só se torna um jogo cansativo para aqueles que exigem garantias. Quando não, é só um ponto de encontro marcado com a beleza da presença do outro.

Embroidery and transfer em tela, por Ana Teresa Barboza, 2008. (https://www.anateresabarboza.com/)

sábado, 27 de janeiro de 2024

Hoje assisti um filme que me lembrou que sou uma alguém sozinha. Sentimentos de solidão e solitude, e do que vai ser de mim na ausência carnal das pessoas que amo. Tua ausência ainda ressoa em mim como uma morte carnal. Não posso te ver, te tocar e nem dizer que te amo. Não posso ouvir tua voz rindo. Não posso sentir teu cheiro. Eu não escolhi isso, mas você sim. O que me resta é viver o luto e esperar não a sua volta, mas o dia em que lembrar da sua ausência não vai me trazer mais dor, e sim uma nostalgia boa.


terça-feira, 16 de janeiro de 2024

reencontrando o sentimento de vontade de levar meu corpo pra ver o mundo. de olhar pra ele como algo que precisa de manutenção. não é que ele carece, ele sente. se ele tem sede, eu dou água. se tem fome, dou comida. se pede colo, às vezes demoro para dar ouvidos, mas logo mais o permito chorar. se ele sente dor de ausências, faço poesia ou conto uma piada. se quer sumir, tento levar ele para ver o mais banal do cotidiano. não existe nada melhor do que permanecer no presente sem apagar um passado que foi bem vivido e soltar. e assim a tentativa de conviver comigo mesma se transforma numa grande amiga, ao invés de um peso.

domingo, 22 de outubro de 2023

Receita pra manter um bolo de amor

 Existe uma receita pra fazer continuar crescer um bolo de amor bonito. É daquelas receitas que estão escondidas em folhas desgastadas e emboloradas pelo tempo. Antiga porém preciosa. Não esquecer sob nenhuma hipótese que os pares de mãos nem sempre vão estar em conjunto, precisando alternar-se entre si vez ou outra. Precisa saber quando dar mais água pra ele nos dias mais secos. Precisa saber enxergar as feridas que ainda não estão completamente cicatrizadas. Lambê-las e beijá-las com álcool, devagar. Precisa saber dar ouvidos nos dias mais gritantes. Precisa dar voz ao amor, que pode se vestir de palavras e ações. Precisa de doses equilibradas de disciplina, paciência e respeito ao tempo do amor, principalmente quando ele for escondido.

 Para uma corda que está quase se arrebentando, apenas microcentímetros de pequenas costuras diárias fazem aquela frágil estrutura não rasgar. E alguns rompimentos são necessários até saber a forma e a pressão exata de fazer o ponto de costura: nem muita folgado e nem muito apertado, na medida certa praquele amontoado de subjetividades que de longe parecem confusas, mas de perto fazem completo sentido.

terça-feira, 20 de junho de 2023

enquanto a vida me acontece

o lembrete da finitude insiste 

em susurrar sorrateiramente

como um fantasma baderneiro

nos meus ouvidos

se prepara pra o que vai acabar

mas de repente já não consigo compreender

as palavras ficam sem tradução

e num susto

lembro de novo do que esqueci

a vida me acontece

    




Cena do filme O Fabuloso Destino de Amelie Poulain





A arte da guerra silenciosa Mover-se em prol de interesses, é natural. Considerar tempo, custo e benefício antes de tomar decisões, é insupo...