quarta-feira, 4 de setembro de 2024

 Já fui em várias apresentações de música sem ler quaisquer informações antes, na esperança de ser surpreendida. Existe uma fé que ocupa o mistério de deixar-se levar pelo coração sem criar expectativas, que nos leva a lugares bonitos. Ela habita também o nascer de uma súbita coincidência da facilidade de escolher e ser escolhido de volta. Difícil mesmo é não se apaixonar pelo outro sendo quem ele é. Inevitável é não se esconder entre seus cachinhos, riso e fonemas. Sentir um par de olhos repousando sobre os seus ao dormir. Descobrir que há evento mais violento ao tempo do que um acelerador de partículas subatômicas: o entrelaçar de mãos. Ter a própria miopia estendida a olhares esquisitos de fora, porque pasmem, você ganhou na loteria uma fonte inesgotável de beijinhos. Observar sua paciência ao conhecer sua trouxinha meio pesada de medos e inseguranças antigas. O carinho e a coragem cura o medo que paralisa, e você sequer teve que fazer o pedido encarecido de: por favor, me ame direito.

Nos entraves do cotidiano, a maturidade ajuda a lidarmos com as consequências de escolhas, a manejar dores e torcer para não sucumbir a uma apatia diante de derrotas e sentimentos de insuficiências e inseguranças: se a semana teve altos, baixos e médios momentos, considera-se estar no lucro. E nesse manejar diário às vezes com sorte, surge alguém para se compartilhar a vida.

Ainda não há política de redução de danos que dê conta de reparar o buraco que se forma no coração quando alguém vai embora. Mas maior que a tristeza da perda é o amor pela liberdade do outro.

O morno e as migalhas não tem espaço para o tamanho da generosidade do amor: ele só é. E ainda que não seja verbalizado, pois por vezes ocupa gentilezas e silêncios que sentem saudade do cheiro do outro: porque quero, não porque preciso.

Que leve o tempo que tiver que levar: conseguir compreender o que você sente e comunicar sua certeza ao outro, vale a pena.

Amar só se torna um jogo cansativo para aqueles que exigem garantias. Quando não, é só um ponto de encontro marcado com a beleza da presença do outro.

Embroidery and transfer em tela, por Ana Teresa Barboza, 2008. (https://www.anateresabarboza.com/)

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