Matematicamente falando as possibilidades de uma escolha são infinitas, assim como suas consequências. Escolhas e suas consequências se comportam como uma cadeia contínua. A vida gira em torno de escolhas, é o que dizem. E quanto mais tenho procurado tentar entender minhas escolhas e os efeitos dessas, dos desprezíveis aos mais perceptíveis, mais tenho compreendido que o risco de receber algum tipo de dano sempre existe. A questão é se eu tenho ferramentas (físicas ou psicológicas) para entender qual será o tipo de dano antes mesmo de eu fazer aquela escolha, porque alguns danos simplesmente não valem a pena. Sem falar nos casos em que você já experienciou os efeitos da escolha, já sabe o que vai acontecer, e mesmo ciente dos danos, repete a escolha. Talvez você repita porque acredita que esse efeito vai mudar. Mas é sempre o endereço que muda. Na 234º repetição da escolha o efeito não tem mostrado qualquer resquício de mudança, e é aí que você passa a alimentar um fantasma e programar o próprio susto. E toda vez que ele aparece, você se assusta como se fosse a primeira vez que o estivesse encarando.
Alguns danos são silenciosos demais e demoram pra dar as caras. Demora pra enxergar o rosto dele. Acho que o problema não está no risco de surgirem danos, alguns são inevitáveis e muitas vezes é impossível controlar a intensidade do efeito. Acho impossível chegar a um "estágio" na vida que se centre apenas no prazer, sendo nós, seres humanos vivendo em constante contato com outras pessoas completamente diferentes. Longe de serem quebra-cabeças, e sim uma grande tralha de subjetividades desorganizadas e acumuladas, prontas pra serem usadas da pior forma possível: como armas apontadas aos outros. A dor existe e é inevitável. No entanto, não cabe aqui (e nem em mim) o significado cristão de transformar a dor numa forma de se alcançar um aprendizado, como se o propósito fosse único, digno e abençoado pelos céus. Algumas dores são descabíveis, danos historicamente repetidos pelas mesmas mãos que nunca ficam sujas de sangue nos holofotes. Mas aqui nesse texto não estou falando desse tipo de dor.
Paguei na faculdade uma disciplina chamada "Biossegurança", e numa das aulas foi discutido sobre como profissionais que trabalham em laboratórios estão a todo momento expostos a diversos tipos de riscos: biológicos, químicos e físicos. O risco é inerente a escolha, o benefício, não. Em alguns casos depende, o risco e o benefício podem ganhar formato com o tempo. Toda escolha implica num efeito que vai te expor a um risco e esse risco pode gerar um dano. Acho que a atenção tem que se voltar para qual tipo de dano a escolha vai gerar, porque algumas escolhas custam mais danos que os benefícios. Por um lado, uma escolha pode se alinhar de forma orgânica às sua expectativas, por outro lado há o risco da existência de danos que podem te levar a uma prisão. Por exemplo, numa situação de escolher lados, após analisar detalhadamente cada motivo do que o fez assumir certo posicionamento, ao mesmo tempo que isso pode contribuir para uma postura mais segura, também pode te deixar refém de situações totalmente opostas a isto. No filme A Pequena Sereia, a princesa Ariel troca a voz por pernas e embora seja um desenho do fim da década de 80, esse ato abre discussão para temas como reprodução de ideais romantizadores tóxicos. Mas aqui quero apenas destacar a escolha da Ariel e suas motivações: ficar sem voz iria lhe fazer ganhar pernas e perder a cauda para viver ao lado do príncipe Eric. Os danos dessa escolha estão nítidos: anular características da sua identidade para se adaptar ao outro. Mas sim, relacionamentos (e a vida num geral) também são feitos de concessões, mas algumas coisas são inegociáveis e ninguém conversou sobre isso com a Ariel.