a gente cresce e aprende a engolir seco espinhos. novas formas de socos e pontadas no estômago que acontecem na ausência de mãos e pés. são palavras as responsáveis pelas feridas. palavras que ao invés de entrarem por um ouvido e sair pelo outro, se acomodam em locais que não tem placas de boas-vindas, em tetos de vidro do coração. palavras que são estraga prazeres, espinhos, espingardas com balas e alvos infinitos. a regeneração é uma benção e uma maldição. palavras que entram como lixo em sacos que estão furados. me sinto só. a gente cresce e tem que aprender a ficar bem só na nossa companhia. aprender a ficar bem depois de ficar mal, não pode ficar mal o tempo todo porque aí tem outro nome: depressão. e quando é apenas solidão? solidão é constante. todos nós estamos sós, ainda que dependemos uns dos outros. estamos sós quando não conseguimos ser compreendidos num instante, e fingir que não estamos sós, isso sim é estado de negação da realidade. me pediram pra ser realista, estou sendo. estamos sós e não devíamos criar expectativas de que amor envolve um estado completo de compreensão. amor também é solidão. mas o que eu faço com toda essa dor? eu sinto, e depois fico bem, pra depois tudo reiniciar? talvez eu não queira resistir a dor, depois de senti-la, talvez eu queira ser sucumbida até desaparecer, pela dor. talvez eu só queira não sentir nada. seria mais útil utilizar meu tempo em prol de algo maior que eu, maior que minhas dores e alegrias. com certeza seria mais útil.
proponho um fim aos ciclos de sentimentos, quero ficar vazia, quero morrer e não ressuscitar, não quero morrer de amor e nem de tristeza, quero morrer de velhice. quero sumir quando sinto vontade. quero ibernar de olhos abertos, o estado de transe do cotidiano já não me afeiçoa. congelar o tempo é possível quando você tira fotos pelo celular e não esquece de salvar. quero conquistar coisas, sem ter que fazer cerimônias. compromissos me assustam, mas sei ser responsável quando a situação pede. quero ser leviana com minhas sombras, e ser sólida com minhas qualidades. quero manter minha atenção em mim e no agora, e somente. não quero ter que dividir minha atenção em várias coisas ao mesmo tempo, é cansativo, e a superficialidade já não me afeiçoa. quero ser superficial sentimentalmente, quero que o outro não tenha poder sobre mim. quero dominar coisas, e não pessoas. situações que podem se desmanchar a todo momento, que nem laço de cadarços de sapatos. quero aceitar a natureza de desamarro das coisas. uma hora tá ali, na outra não tá mais. não quero ter a tendência absurda de manter meus olhos e mente numa tristeza. quando me afundo nela, uma hora vejo o buraco sem fundo, e volto pra superfície. não quero estar nessa situação, para ser sincera. a superfície é tranquila, as margens são meu mantra. não quero me atirar no olho de tempestades internas.
por isso repito, quero ser superficial sentimentalmente.
o que fazer quando a existência é uma prisão?
não sei pra onde vou, não estou satisfeita onde estou, faço planos que nunca se realizam. a rotina de jogar rascunhos no lixo vai me levar a lugar nenhum. me auto proclamo um fracasso, para que não seja um fim que vou atingir, nem de onde parti. me autoproclamo, e já tiro o peso de que vou ser um fracasso, se já sou não tem como ser duas vezes o mesmo fracasso. posso continuar a ser o fracasso mas com a possibilidade de não ser o mesmo fracasso. posso cometer novos erros e acertos. me sinto mais leve já.
faço planos porque me disseram que o correto é fazer planos. acordar cedo, se organizar com antecedência, limpar a mesa e colocar uma roupa bonita, lavar os pratos e ser grata. e sempre tem o "não esqueça de respirar", embora ninguém realmente esqueça de respirar. trabalhar e esperar. eles sempre dizem essas coisas como se fossem pegadas até um tesouro que não existe. o pote de ouro no fim do arco-íris é um pote vazio, e o doende que cuidava desse pote morreu atropelado certa vez em que repetia o caminho de ida ao seu trabalho. o ofício era simples: ficar de prontidão ao lado do pote vazio. não importava se o pote estava cheio ou não, ninguém conseguia chegar no pote, eram muitos desafios pra se chegar no pote, muita gente morria no caminho, ou por conta de descrença ou por medo do doende. imagens tem poder, sustentá-las é uma forma de controlar. uma ilusão pode ter tanto poder sobre seu destino quanto um tiro. mas o doende morreu, e o pote caiu com um ventania que deu. poucas pessoas chegam até o outro lado do arco-íris, e as que chegam morrem após quebra de expectativa. no final, todos percorrem um propósito que outros disseram que era um propósito, e morrem insatisfeitos. é sempre assim.