terça-feira, 11 de abril de 2017

23:43
O relógio que antes tocava pontualmente
pifou
Mas suas peças estavam intactas,
Pifou
É que a voz disse ontem mesmo
Que tudo ia ficar bem
Que era pra eu ficar bem
Que o relógio tocaria
Quando a hora chegasse
E suas palavras eram como chamas acalentando os dedos de um pequeno peregrino camuflado
numa tempestade de nevasca infinita
Dançavam com o frio
Remendavam os buracos daquele corpo esburacado
Daquela alma montanhosa com túneis horrendos pelos meios
Suas palavras eram travesseiro para meu esqueleto enferrujado
baldes d'água quando eu era semente enterrada
Eram fonte quando eu era náufraga
Eram régua para minha dor
E sabiam desarmá-la
Só elas sabiam como
Sabe lá céus como
Mas o relógio não tocou
E teu silêncio era mais cortante que uma palavra
mau
dita
23:43
Meus olhos aflitos
Fitam o que não vai acontecer
Criam sons da chegada esperada
Remoem, reviram, desabam
Levantam-se
E escutam
Uma fábula cabulosa
E o relógio não tocou
E ele não mais soou em desacordo com a minha sagaz arrogância
Minha estupidez humana
Ficou no meu olimpo secreto
Acabei dentro do espelho
da rainha da branca de neve
Engoli minha vaidade
Não enfrento minhas criaturas
Não encaixo nas molduras
Não sirvo nesse corpo quadrado
Meu sol nem forma tem
Sou cega a minha verdade
Subornei a minha liberdade
E agora pago pelo que nunca tive
Pago pelo que esperei
Pago em nome do meu Olimpo das Ilusões
Criei uma peça mau escrita
E em vez de andar por linhas tortas
De repente não mais tinham linhas
E eu desejei a tua face torta
Por segundos infinitos
Que face?
Teu recuo a me enxergar
Criam sombras duplas
escurecem tua boca
Tua voz desaparece
Tua seca me confunde
Teu silêncio cala meu socorro
Coroei a minha falsa liberdade
Que é amar o que foi perdido
Que é amar o que não foi dito

segunda-feira, 10 de abril de 2017

É uma dor sombria
chega de fininho nos becos sombrios da minha mente
chega fazendo bueiros
chega quebrando, um por um,
teclado por teclado
do meu piano
que fazia sons
inaudíveis a todos
mas eu os escutava
às vezes eram gritos
às vezes eram uma orquestra sinfônica
digna de um maestro astuto,
sabia bem os tons que desenhava no ar
com suas mãos de pincel
criava alfabetos como ninguém mais criava
pintava cores invisíveis falantes
era um espetáculo
com dias contados
Ah, mas lá fora era outra história
eram ecos tolos que ficavam de prontidão
o meu copo, que apresentava uma fina
finíssima rachadura
continha um oceano raso, calmo até
a dor chega, faz redemoinho com minhas águas
faz-me engolir sal
faz-me afogar em lágrimas
a dor não me deixou respirar
nem o último suspiro me deixou dar
se colocava a desdenhar
Até que um dia, na beirinha da mesa da escrivaninha
o copo é empurrado
meu corpo
é empurrado
Cai
Caí
a dor vai embora
os fragmentos cortam, sangram
mas a dor se foi
se foi
e com o tempo, eles se retomam
os fragmentos são juntados
com cola de sapato
sem jeito, assim como quem
bota café no fogo numa tarde
pra um desconvidado qualquer
sem jeito, o copo é refeito
sem jeito ele vira copo de novo
e o maestro já se prepara para os aplausos
de um novo espetáculo
onde o público se vestia de vermelho
se vestia de cortina
era um espetáculo

A arte da guerra silenciosa Mover-se em prol de interesses, é natural. Considerar tempo, custo e benefício antes de tomar decisões, é insupo...