domingo, 22 de outubro de 2023

Receita pra manter um bolo de amor

 Existe uma receita pra fazer continuar crescer um bolo de amor bonito. É daquelas receitas que estão escondidas em folhas desgastadas e emboloradas pelo tempo. Antiga porém preciosa. Não esquecer sob nenhuma hipótese que os pares de mãos nem sempre vão estar em conjunto, precisando alternar-se entre si vez ou outra. Precisa saber quando dar mais água pra ele nos dias mais secos. Precisa saber enxergar as feridas que ainda não estão completamente cicatrizadas. Lambê-las e beijá-las com álcool, devagar. Precisa saber dar ouvidos nos dias mais gritantes. Precisa dar voz ao amor, que pode se vestir de palavras e ações. Precisa de doses equilibradas de disciplina, paciência e respeito ao tempo do amor, principalmente quando ele for escondido.

 Para uma corda que está quase se arrebentando, apenas microcentímetros de pequenas costuras diárias fazem aquela frágil estrutura não rasgar. E alguns rompimentos são necessários até saber a forma e a pressão exata de fazer o ponto de costura: nem muita folgado e nem muito apertado, na medida certa praquele amontoado de subjetividades que de longe parecem confusas, mas de perto fazem completo sentido.

terça-feira, 20 de junho de 2023

enquanto a vida me acontece

o lembrete da finitude insiste 

em susurrar sorrateiramente

como um fantasma baderneiro

nos meus ouvidos

se prepara pra o que vai acabar

mas de repente já não consigo compreender

as palavras ficam sem tradução

e num susto

lembro de novo do que esqueci

a vida me acontece

    




Cena do filme O Fabuloso Destino de Amelie Poulain





domingo, 4 de junho de 2023

Dentro de colchões d'água existem espinhos finíssimos 

Movem-se com as estações dos anos, às vezes amontoados em arestas, às vezes bem distribuídos 

Talvez nenhum processo seja isento de sofrimento

Guardar os motivos numa caixa de música pra que suas lágrimas não dancem em ouvidos e bocas errantes por acreditarem na mentira que criam de si mesmos

O ego é faca cega, meus espinhos não. 


domingo, 26 de fevereiro de 2023

alguma coisa parecida com uma oração

 


💟

eu entrego ao mistério

minhas certezas 

minha descrença no outro

e minha descrença na vida

já não me cabem mais



que eu não me atente ao que só me trás falta 

ao que nunca vem e nem vai, não quero

de mediano ou incerto já basta uma parte de mim


que eu me atente a querer estar com o que me trás presença

 que haja entrega e despedida ao momento

que eu saiba me demorar no agora sem me perder no outro


que a hora da minha decepção demore

e que não aconteça por tudo

porque nem tudo merece minha atenção 


 

que eu entenda que a tentativa é uma via de mão dupla

  e que eu consiga encontrar a força e a confiança em algum lugar

que um dia escondi de mim mesma

💟

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2023

Em nome do meu amor por mim

Em nome do amor fica fácil fechar os olhos e ouvidos para o que está sendo feito ou dito. Em nome do amor, o peso das tentativas fica mais leve. Até o momento que você percebe que está cambaleando. Sozinha. São escolhas em nome do amor, ainda que o papel seja o de enganar a si mesma. Papéis solos são para os que estão dispostos a dar a cara a tapa mas nem sempre existirá essa disposição. Eu escolho entender a decisão do meu amor de não fazer mais questão nenhuma de mim. Eu escolho não dar a minha cara a tapa. Não porque ele não merece, porque ele merece sim todo o amor que existe nesse mundo. É só porque dói em mim desejar o que não posso ter. Não quero ter que aprender a conviver com mais uma dor, afinal eu não sou uma colecionadora de dores. Existem momentos que nos forçam a escolher quais feridas inevitáveis teremos disposição em remediar.  Não dá pra deixá-las sangrando.


Me apaixonar foi sim inevitável. Não continuar alimentando esse sentimento é uma das poucas escolhas que evito mas não posso. Não devo. Valorizarei uma das poucas liberdades que tenho em mãos, em nome do meu amor por mim. Não é que eu esteja escolhendo não me apaixonar de novo por você, eu estou escolhendo não me machucar por mim mesma.




E não acho que haja mal em idealizar alguém. É enxergar com os olhos, os ouvidos e a boca o lado mais bonito da outra pessoa. Mas como tudo demais é veneno, idealizar  também é. Talvez a solidez das relações esteja na presença mútua e nem sempre compassada da tentativa de equilibrar realismo e idealização sobre o outro e porque não sobre a vida? 

Nossas faces mais sombrias existem e devem ser nomeadas. As máscaras devem cair mesmo que sem querer, quando estamos juntos de quem amamos. Ao contrário disso, machucará a si e ao outro. Aprender a conviver com as próprias sombras sem deixar de assumi-las para quem confiamos e nunca permitir que elas se estendam como manto para o outro, porque isso não seria justo. Não se deixar ser consumido pelas sombras é algo mais difícil de se fazer.

Acho que não cheguei a falar exatamente o quanto eu me importo com você. Hiperidealizei que você subentendia que eu faria qualquer coisa por você. Mas acho que te assustei com as minhas ações, porque até o que estava fora do meu alcance eu tentei fazer pra te mostrar o que tava dentro de mim. Ainda me pego às vezes pensando nos momentos que falei de menos e demais, quando era só pra eu falar o que sentia. A minha racionalização passou do ponto e virou delírio. Você merecia mais do que um delírio.

Às vezes uma distração é a única coisa capaz de ocupar um buraco que insiste em ser tapado com um significado inventado, ainda que por hora. "Incompreensivelmente verdadeiro mas eterno". Talvez o que foi ou é verdadeiro não deva ser compreendido e muito menos eterno. Pode existir num piscar de segundos, minutos, horas, dias, meses, anos. Até não existir mais. E tudo bem porque isso não significa que foi uma mentira, e sim que acabou. Transformou-se em outra coisa. 

Acho que o nosso amor durou segundos algumas vezes. Não acho que sou louca o suficiente pra inventar isso, não acho que me apaixonei sozinha, a não ser que você dissesse em voz alta isso olhando nos meus olhos. Só isso pra me fazer mudar de opinião. Esperei pacientemente você me atravessar e ir embora, mas permaneceu e nem sabia. Permaneceu em mim, não por querer, não pedi isso, aconteceu. E acabou, embora não ter uma resposta direta ainda me doa.

Contínuos sopros de tentativas de enxergar beleza na própria solitude em meio a centenas de milhares de pessoas, é pra onde minha atenção vai ser sustentada de agora em diante. Antes estava voltada para o que há de pior em mim, para o que nunca vou viver e para o que ainda não vivi. Mas agora não. Preciso mais do que nunca ser meu par nessa dança, porque sozinha eu não aguento. As minhas sombras vão ser minhas lanternas e meu esconderijo, pra quando eu sentir vontade de fugir do mundo e de mim mesma. 

Não vou me desculpar por sentir, muito menos por ter me apaixonado. Peço desculpas a mim por ter me atentado mais a profundeza de um vazio, do que aos contornos. Tentarei reconstruir meus contornos, para me fazer segura de mim. Não do que não posso controlar, só de mim.  Eu serei o sinal de segurança que achei no outro.



terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Tentativa de não tapar o buraco com peneira

É fácil acreditar na autossuficiência do amor porque ele é abundante e generoso. Inabalável. Ele é sim, tudo isso e mais um pouco. Mas ele nunca vai ser autossuficiente para fins egóicos. Nem por isso deve ser considerado um erro ou mentira. O problema é quando fazemos do amor uma bengala para sustentar nossas inseguranças. O problema é querer imprensá-lo num formato que não vai caber. Não adianta, ele é grande demais. Cortamos suas asas quando passamos a querer controlá-lo, querer que ele se ajuste aos nossos desejos, mesmo quando muitos já foram atendidos. Porque sempre vamos querer mais. Mais provas, mais demonstrações, mais sacrifícios. 

Graças a bola de cristal chamada algoritmo do instagram, assisti a dois vídeos curtos de dois episódios de duas séries que gosto muito,episódio  6 da 2° temporada de Fleabag e episódio 5 de The Midnight Gospel, entre a tarde e a noite de uma quarta-feira de cinzas. Um que termina afirmando que o amor parece esperança e o outro sobre o desapego da esperança. Cheguei na conclusão que amor é um paradigma cuja forma de sentir está em constante mudança. Existem várias formas de sentí-lo. 





Amor é dar e também receber mas esse receber nem sempre vai vir na forma que desejamos. Ele não existe para nos servir. Diferentes mundos, diferentes linguagens, diferentes atmosferas, diferentes espaços de tempo. Existem coisas que fogem ao nosso controle.

Amor não é controle, é desapego da expectativa que colocamos no outro e apego somente no agora. Não para evitar se machucar, mas para reduzir a dor das quedas e o tempo que leva pra levantar de novo. Não é sobre se entregar de menos e sim sem se perder de si. Mas e quando a gente se perde? Acontece, tá fora do nosso controle. É necessário escoar tudo o que essa falta de controle causa para lugares que nos relembrem quem somos, ainda que outras partes tenham sido mortas foram transformadas.


sábado, 11 de fevereiro de 2023

 Quando as coisas começam a finalmente assumir um formato que caiba o tamanho do desespero de viver sem se sentir perdida dentro de si, resquícios impossíveis de serem retirados apenas com mudanças repentinas persistem em existir. Vão embora! Sim, não te esquecer é um erro que vive na forma de resquícios. É um teste. Tem que ser. Um teste que me assombra com questões que não possuem respostas simples. Até que ponto posso crer numa ilusão e o porquê disso? Porque não consigo persistir em acertos da mesma forma que persisto nos erros? Não me amo o suficiente para compreender a completa falta de retorno a algo que tentei me doar? Ou me amo tanto a ponto de imaginar uma reciprocidade com o lado mais bonito e sombrio de alguém que tentei compreender?

Sentir e supor roupas para silêncios é encantador e na mesma medida, horrendo. Quando menos você perceber vai estar enfeitando uma dor gritante, e com que direito? 

Eu sinto muito ter me apaixonado e não ter sido corajosa o suficiente pra poder falar. E ainda assim, seria uma mentira dizer que não tentei.

A falta de palavras já não me enche mais o coração. Não posso me dar o infortúnio de desejar o que não mereço. E talvez os resquícios persistem em existir porque eu tenho que dar forma, nome e poesia ao que mereço. 

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2023

 🌱

pequenas obsessões parecem ervas daninhas

se não podá-las

é capaz de se transformarem em plantas carnívoras

que engolem seu ego por completo

e te deixam sozinha

não na própria presença

sozinha

🌵

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

 A resposta talvez não tá em não sentir, mas sim em tentar fazer algo em relação a isso. Tá na tentativa.

Um pedestal de origami: se soprar, cai

Eu entendo -realmente entendo- o ato de se colocar num pedestal. Ele é compacto o suficiente para carregar e ao mesmo tempo não limitar o tamanho da sua liberdade, afinal não tem grades. Essa liberdade egoica de não fazer o que as pessoas esperam e o prazer de desapontá-las. O outro é só o outro, e o que o pedestal carrega é evitar a todo custo se envolver porque demonstrar qualquer tipo de vulnerabilidade emocional significaria se sujeitar a possibilidade de se magoar. Apesar de que reconhecer a própria existência, dói. Se fantasiar com a ideia de que a liberdade tem o tamanho de um ego inflado é anestesiante, quando na verdade esse é o local que mais a limita. "Sua liberdade termina quando a do outro começa". Mas é tão difícil assim de acreditar que os limites da liberdade podem ser, ao invés de divisórias, portas?

domingo, 8 de janeiro de 2023

 me sinto desesperançosa. diminuí tanto as expectativas que já não sei discernir o que desejo, o que não quero e como mostrar isso pra quem amo. me sinto só e desaprendi a compartilhar. antes eu sabia falar a língua de estrangeiros em terras desconhecidas. agora não sei nem mais falar a minha língua.

domingo, 1 de janeiro de 2023

O último dia do ano

Se você parar um minuto pra observar e escutar com atenção, está lá. Você pode achar que não, porque não há vestígios de afirmações. Pode parecer só mais um dia qualquer de voto de silêncio. Mas não é qualquer silêncio, é o do tipo que ensurdece os ouvidos. Talvez não há timbre de voz corajoso o suficiente para admitir o que está lá. Talvez as cordas vocais estejam desgastadas demais pelas vezes em que foram usadas a troco de incompreensões. Comunicação falha. O peso do acúmulo de sentimentos não ditos é a decoração perfeita de um encontro marcado no último dia do ano com qualquer outro compromisso que não seja a autoconfrontação. Se dar o trabalho de passar horas dedicando-se a algo não tem urgência alguma, é uma preferência que tem um porquê tristemente escancarado. Doar-se a algo que poderia ser resolvido em minutos de qualquer outro dia: a falsa justificativa perfeita de uma ausência. Uma justificativa infundada mas óbvia. Inventada mas confortante. Não sei se há uma negação ou aceitação de uma realidade, paralelo a jogar a toalha durante uma luta dolorosa. Há uma beleza triste no auto-engano. A falsa sensação de comodismo é uma tentativa quase ingênua de se proteger. Mas a sobrevivência exige um jogo camaleônico, de ataques, defesas e contenções, enquanto se enganar é estar se comprometer a domesticar mais uma cabeça de Hidra mental.

A arte da guerra silenciosa Mover-se em prol de interesses, é natural. Considerar tempo, custo e benefício antes de tomar decisões, é insupo...