domingo, 1 de janeiro de 2023

O último dia do ano

Se você parar um minuto pra observar e escutar com atenção, está lá. Você pode achar que não, porque não há vestígios de afirmações. Pode parecer só mais um dia qualquer de voto de silêncio. Mas não é qualquer silêncio, é o do tipo que ensurdece os ouvidos. Talvez não há timbre de voz corajoso o suficiente para admitir o que está lá. Talvez as cordas vocais estejam desgastadas demais pelas vezes em que foram usadas a troco de incompreensões. Comunicação falha. O peso do acúmulo de sentimentos não ditos é a decoração perfeita de um encontro marcado no último dia do ano com qualquer outro compromisso que não seja a autoconfrontação. Se dar o trabalho de passar horas dedicando-se a algo não tem urgência alguma, é uma preferência que tem um porquê tristemente escancarado. Doar-se a algo que poderia ser resolvido em minutos de qualquer outro dia: a falsa justificativa perfeita de uma ausência. Uma justificativa infundada mas óbvia. Inventada mas confortante. Não sei se há uma negação ou aceitação de uma realidade, paralelo a jogar a toalha durante uma luta dolorosa. Há uma beleza triste no auto-engano. A falsa sensação de comodismo é uma tentativa quase ingênua de se proteger. Mas a sobrevivência exige um jogo camaleônico, de ataques, defesas e contenções, enquanto se enganar é estar se comprometer a domesticar mais uma cabeça de Hidra mental.

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