domingo, 4 de março de 2018

A saudade é uma dama

Uma dama de vermelho vestida de véu preto que chega devagar, silenciosa que nem névoa em bosques longínquos, muito longe de embaçar, ela esta pronta pra mostrar o que ninguém enxerga e lembrar o que todo mundo esquece. Ao redor estão rostos que parecem espelhos que refletem luzes, algumas sao brilhantes, outras são como candelabros, quase penumbras, e outras são como ceras que beiram pratos metálicos gelados, em um dia frio, com uma pontinha preta fina no meio de vela, ainda assim acesa. Ao redor do lago azul de olhos tristes, encontram-se linhas, rugas de cenas que jamais serão vividas de novo. A rotina já não é aquela velha amiga, e a chegada das luzes são convidativas, nostálgicas. A saudade já não é aquele velho sentimento de fins de semana, de dias que contamos nos dedos. Ela vem em forma de anos, como uma encomenda grande e gorda, onde na embalagem é grafado em caligrafia itálica, pairando ar de delicadeza: dias a menos. Dias a menos. Dias a menos pra um jantar num restaurante, dias a menos pra um encontro marcado, dias a menos pra vê-los. Dias a menos para não vê-los. Dias a menos. Por que a ambiguidade habita em cada canto que nos encostamos? Aquela mesma estação de ônibus que vai trazer o seu amor, vai levá-lo embora. Aquela mesma casa que guarda as luzes, e que fica tão cheia e tão viva em questão de segundos, vai ser invadida pelo vazio em questão de dias a menos. Pois é, o tempo é rei e carrasco em terra de saudade. A saudade é dama de vermelho e véu preto em terra de dias a menos. Tinha dias que a rotina era um caco de vidro no pé, em outros era um mal necessário. Mas sempre que o laço da rotina quase ia sendo cortado, a saudade chegava rasgando cada traço de tentativa de fuga. A memória beijava todos os dias seus olhos, e não a deixava em paz. Não queria mais cartões postais, telegramas ou fotografias, cuja beleza enfeitiçava a saudade. A beleza vindo em porções pequenas, ainda assim engana. Mas não sacia. Não sacia a vontade do sentir o cheiro, de ver o olhar de manhã cedo, de escutar assobios e cantos misturados aos sons dos passarinhos. De viver o momento e não a distância. A saudade é aquele copo de café preto em xícara de cor meio caramelizada, meio queimada, de gosto meio amargo, meio seco, que ao entrar na garganta queima. Mas o cheiro, ah! O cheiro encanta qualquer nariz aberto a odores shakesperianos. É cheiro de tempo e de saudades, de Reis e Carrascos. De livros mau lidos, bem lidos, antigos, rasgados, queimados, escondidos, perdidos, achados, deixados na cabeceira de lado, deixados no fundo da gaveta cobertos de poeira, terceirizados, lambidos, cuspidos, beirando a linha do trascedente, beijados. As saudades são as botas batidas do Judas, que vez ou outra são encontradas trazendo chulés, vez ou outra sendo abrigos à pés que andam como espinhos em estradas de barro.

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