sábado, 8 de julho de 2017

O mito do Homem Branco Superior ainda supera Papai-Noel e Fada do Dente

Lendo um trecho de um livro de história, me deparo com a informação sobre a descoberta de um esqueleto fóssil feminino, considerado o mais completo da família do Australopithecus, em 1974, encontrado na Etiópia, país africano. Então, a "comunidade" científica escolhe colocar o nome do fóssil de Lucy, para homenagear uma canção dos Beatles, que na época faziam sucesso "mundial", vulgo no hemisfério Ocidental. Resumindo: o fóssil foi encontrado em território africano e a homenagem é a um produto cultural ocidental, mais especificamente da cultura inglesa. Esse fato é uma constante que muda de fantasia de tempos em tempos. Lembrando da prática do imperialismo, em que países desenvolvidos se consideravam culturalmente e economicamente superiores a países principalmente orientais, esse acontecimento recente mostra que ela ainda prevalece e contribui a uma maior idolatria à cultura ocidental. Os países de grande poderio invadiam e viravam parasitas não só de matérias-primas, como também do sentimento de nação, de continentes asiáticos e africanos, mandando e desmandando em suas terras e em sua cultura, afinal, para conseguirem seus lucros, tinham que fazer com que o consumo, por parte dos habitantes, fosse de seus produtos culturais, causando milhares de conflitos étnicos e religiosos. Essa ideia de associar o que é "legal"/moda a algo americanizado, é fruto do imperialismo. A manipulação dos gostos musicais, cinéfilos e culinários tem sido da autoria de países desenvolvidos que acabam tendo sucesso, não pelo poderio bélico, mas por influência de fatores econômicos e -principalmente- midiáticos, dos famosos meios de comunicação. Por que, no meio musical, as bandas americanas estão estampadas em outdoors reais ou virtuais, enquanto bandas holandesas, russas, africanas, indianas e egípcias, possuem como maior parte do público, específico de seus locais de origem? Por que, a minoria (do Ocidente) que se interessar por elas, é considerado como alguém que tem um "gosto peculiar"? E por que, no meio cinematográfico, mais uma vez, em sessões de cinemas, o catálogo está sempre lotado de filmes principalmente americanos e ingleses, e não com uma distribuição uniforme de origens diversas? É como uma venda manuseada pelas potências mundiais: o indivíduo só vê o que Elas deixam, não mais que isso, e o diferente acaba sendo associado a algo ruim, estranho. O ritmo lento de filmes franceses, por exemplo, acaba sendo considerado cansativo pelo público ocidental que está acostumado com cenas rápidas da maioria dos famosos filmes americanos, e seu conteúdo acaba sendo ignorado. Se não é consumido, não dá lucro, portanto é descartado da vitrine de opções culturais vendidas pela mídia. O termo "Opções" é bem incorreto, considerando que nossas escolhas não são bem nossas, na verdade são controladas pelos grandes "chefões" e aqui começa a grande discussão de Indústria Cultural, que é só mais outra constante na sociedade contemporânea, mostrando que, enquanto a sociedade progride em certos pontos, em outros, involui, caminha para o lado contrário de vários modos, seja ignorando Adorno e Horkheimer, seja tentando julgar produtos pela sua etnia e não pelo conteúdo. Evolução é algo realmente relativo.

sábado, 1 de julho de 2017

O esquisito chamado de Amor

Velhos hábitos nunca mudam
não adianta, amor
tentar remendar os rasgos dessa roupa
com laços folgados que deixam os buracos
entrelaçados e escondidos
permanece a mesma camisa antiga
com perfumes que embaçam os mesmos erros
o odor continua
mais uma vez
berros são resolvidos com a palma da mão
berros são resolvidos com a altura da voz
cadê tua voz
ele grita
ela tapa os ouvidos
costurando a própria boca
se enche de panos entre os dentes
ao deitar-se toda noite
sussurra
pro mundo calado
a oração de cada dia
"Tudo em nome do amor"
E esse tudo é seu carrasco
e não mais o esquisito que usa trapos velhos
ela é sua própria foice
ela está com a pena na mão, a sentença é de sua autoria
"Mil desculpas, paixão!
quebro-me em mil pedaços, mas me devolve a tua mão!"
Ela não ouve mentiras
mas sua vida (que vida?)
é uma perfeita ilusão
marionete guiada por mãos
de um corpo cujos olhos estão feridos
Ao cair pela centésima vez,
de joelhos ao chão
lava as roupas do esquisito
e tenta, fervorosamente, tirar o cheiro de orgulho
quer
por mais que tudo
tapar os buracos negros profundos
e tenta novamente
e falha novamente
mente falha a do ser humano
mal sabem que não se limpa com sal ferida infeliz
não se muda alguém como se compra cabides
não se desfaz um quebra-cabeça que está emoldurado
e mais uma vez
o buraco é tapado, outra mentira renasce
e ela cai em desespero
em silêncio! Se não acorda o esquisito
codinome: Amor.
Pela centésima primeira vez ela cai
dessa vez empurrada pela voz de seus pensamentos
"Queremos sair!"
E a Liberdade pede carona, sem volta
com destino da boca pra fora
e da boca do esquisito
veneno
disfarçado de abrigo
e ela bebe do seu vinho, pela milésima vez
mas a Liberdade não quer saber,
luta contra correntes e demônios internos
quer viver!
Ela olha pra dentro, e sente o céu negro
seus olhos de repente
reparam o vulto que chama de Amor
e ao invés de lágrimas, guarda-chuvas em seus olhos
sua arma torna-se a palavra
e a sua retirada do círculo sem fim do esquisito
tira-lhe do caminho um futuro vestido de velhos erros
e a sua vida finalmente, tem um início
enfim

terça-feira, 11 de abril de 2017

23:43
O relógio que antes tocava pontualmente
pifou
Mas suas peças estavam intactas,
Pifou
É que a voz disse ontem mesmo
Que tudo ia ficar bem
Que era pra eu ficar bem
Que o relógio tocaria
Quando a hora chegasse
E suas palavras eram como chamas acalentando os dedos de um pequeno peregrino camuflado
numa tempestade de nevasca infinita
Dançavam com o frio
Remendavam os buracos daquele corpo esburacado
Daquela alma montanhosa com túneis horrendos pelos meios
Suas palavras eram travesseiro para meu esqueleto enferrujado
baldes d'água quando eu era semente enterrada
Eram fonte quando eu era náufraga
Eram régua para minha dor
E sabiam desarmá-la
Só elas sabiam como
Sabe lá céus como
Mas o relógio não tocou
E teu silêncio era mais cortante que uma palavra
mau
dita
23:43
Meus olhos aflitos
Fitam o que não vai acontecer
Criam sons da chegada esperada
Remoem, reviram, desabam
Levantam-se
E escutam
Uma fábula cabulosa
E o relógio não tocou
E ele não mais soou em desacordo com a minha sagaz arrogância
Minha estupidez humana
Ficou no meu olimpo secreto
Acabei dentro do espelho
da rainha da branca de neve
Engoli minha vaidade
Não enfrento minhas criaturas
Não encaixo nas molduras
Não sirvo nesse corpo quadrado
Meu sol nem forma tem
Sou cega a minha verdade
Subornei a minha liberdade
E agora pago pelo que nunca tive
Pago pelo que esperei
Pago em nome do meu Olimpo das Ilusões
Criei uma peça mau escrita
E em vez de andar por linhas tortas
De repente não mais tinham linhas
E eu desejei a tua face torta
Por segundos infinitos
Que face?
Teu recuo a me enxergar
Criam sombras duplas
escurecem tua boca
Tua voz desaparece
Tua seca me confunde
Teu silêncio cala meu socorro
Coroei a minha falsa liberdade
Que é amar o que foi perdido
Que é amar o que não foi dito

segunda-feira, 10 de abril de 2017

É uma dor sombria
chega de fininho nos becos sombrios da minha mente
chega fazendo bueiros
chega quebrando, um por um,
teclado por teclado
do meu piano
que fazia sons
inaudíveis a todos
mas eu os escutava
às vezes eram gritos
às vezes eram uma orquestra sinfônica
digna de um maestro astuto,
sabia bem os tons que desenhava no ar
com suas mãos de pincel
criava alfabetos como ninguém mais criava
pintava cores invisíveis falantes
era um espetáculo
com dias contados
Ah, mas lá fora era outra história
eram ecos tolos que ficavam de prontidão
o meu copo, que apresentava uma fina
finíssima rachadura
continha um oceano raso, calmo até
a dor chega, faz redemoinho com minhas águas
faz-me engolir sal
faz-me afogar em lágrimas
a dor não me deixou respirar
nem o último suspiro me deixou dar
se colocava a desdenhar
Até que um dia, na beirinha da mesa da escrivaninha
o copo é empurrado
meu corpo
é empurrado
Cai
Caí
a dor vai embora
os fragmentos cortam, sangram
mas a dor se foi
se foi
e com o tempo, eles se retomam
os fragmentos são juntados
com cola de sapato
sem jeito, assim como quem
bota café no fogo numa tarde
pra um desconvidado qualquer
sem jeito, o copo é refeito
sem jeito ele vira copo de novo
e o maestro já se prepara para os aplausos
de um novo espetáculo
onde o público se vestia de vermelho
se vestia de cortina
era um espetáculo

segunda-feira, 20 de março de 2017

Toc toc

Fantasmas que se esgueiram
silenciosamente no fundo do meu quarto
fazem de sofá o meu ouvido
fazem barulhos de palavras
minha mente os escuta,
repetem o que escolhi esquecer
de repente estou colhendo espinhos
é difícil
sangra, dói
as lembranças de um passado esquisito
esquecido, encardido
retiram o lençol empoeirado
que um dia pus lá
cospem em mim
a ilusão
de que um dia os queimei
toc toc
fantasmas
zombando dos meus planos escritos em tábulas rasas
me fazem curvar diante de um rosto
que já não pertence a mim
esse, já morreu.
fantasmas, riem
me abanam com os rasgos
dos papéis do lixo
que um dia joguei
e sem querer guardei
o lixo, camuflado de baú
não era o que eu pensei
fantasmas me arrodeiam
minha lembranças são hostis
vão embora!
de porta a fora
toc toc
quem é?
Presente.
Até que enfim.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Tudo é temporário

A vida é tão inexata. Isso é incrível e assustador ao mesmo tempo. A sua temporalidade me intimida, não posso mentir... "Tudo é temporário". De acordo com o dicionário, temporário é algo "Que dura por algum tempo; provisório, transitório". É tudo instável mas, se você acaba sentado num sofá grande e espaçoso, numa casa grande e espaçosa, com a mente pequena e espaçosa, quase incorporanndo um ponto preto no meio do branco, por um tempo longo e indeterminado, sem expectativas ou ambições... então se encontra na zona de conforto, na tão temida (às vezes sim às vezes não) estabilidade da vida. É claro que quando as pessoas se tornam imóveis por muito tempo acabam apodrecendo na própria jaula que criaram. Se tornam reféns do tempo, afinal não fazem ideia do que fazer com ele. Às vezes, eu sou refém do meu relógio. Quantos momentos não foram aproveitados por pura vaidade do pensamento que escolta minha mente "Tic tac O melhor está por vir, tic tac tic tac tic tac...". Se há um segundo eu me defini alguém, no outro esse "alguém" eu não mais reconheço. Somos borboletas gigantes e muitas vezes não sabemos aproveitar a fase no casulo. Muitas vezes não sabemos aproveitar nenhuma fase, afinal, estamos sempre ambicionando o futuro, o que está pra vir , de repente, torna-se melhor que o agora. De repente, não mais que de repente, jogamos nosso tempo fora a cada segundo que não vivemos a inconstância do agora. É como pegar uma ampulheta e quebrá-la, só que aos poucos, fazendo furinhos leves, aos poucos temos umas grande peneira de vidro sendo guiada por alguém cujas expressões tornam-se irreconhecíveis. Cecília de Meireles que o diga. Olhos amarronzados, óculos afunilados, narizes não mais empinados, a vida é um preto e branco que não parece tão divertido quanto nos filmes antigos. Alguém com um rosto borrado, que se julga morto aos olhos de quem os observa, diz que sua face verdadeira encontra-se nas fotos daquele tempo. Ah.. aquele tempo. Chega. Nada disso, nada de venerar o passado, idealizar o futuro e esquecer o presente. Que saiba viver aprendendo sobre a vida e seus mistérios, que possa morrer em cada final de sentimento e renascer em cada desilusão. Que a bola de cristal quebre para que eu não possa idealizar o inesperado, falsificar memórias, me derreter de prazer pelo que nunca existiu. E que meu relógio fique intacto, para nunca esquecer da efemeridade do tempo, que tudo passa, que o que é, já não é mais. Que quando vê, passou.

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Poema de um papel branco antigo de um tempo perdido

Dançamos e pulamos
nos teclados do piano
tua alma em mim
toca sonhos, toca mundos,
toca saudades e suspiros,
toca música, toca vida.
derrapamos em buracos
a repetição do erro desacelera
e atamos nossas mãos
e todo final feliz recomeça

Não temas querido,
o intrigante é enigma
mas também é revelador
o imprevisível tira a venda dos meus olhos
me desvenda, amor

Guarda então o restinho do amor
que tens por mim?
no bolso de alguma calça remendada, por favor
ou num dicionário qualquer,
cada significado terá um pouco de mim
em ti
meu cheiro, teu beijo,
teu mundo é pergaminho
que eu decidi seguir
túnica dourada envolta o meu amor por ti
serás quem a tirará de mim,
ou atirarás em mim?

A arte da guerra silenciosa Mover-se em prol de interesses, é natural. Considerar tempo, custo e benefício antes de tomar decisões, é insupo...