Existem momentos que perder o foco de algo que você estava extremamente concentrada e acostumada é uma necessidade disfarçada de mal. É desse desvio do controle enrijecido sobre algo que você subentende ter completo domínio, que surge uma brecha pra repensar o porque você tá se fazendo presente ali. Se apegar a esse ponto pode significar um piso para o corpo de alguém que tem caído em abismos, tal qual Alice. Pode significar um motivo, em meio a total escassez de esperança. Pode ser um criador de estabilidades. No entanto, o ato mais instável de cair em desatenção é necessário, pra lembrar da sua falta de controle sobre tudo. É um paradigma de emoções ter que lidar com essa lembrança: eu não tenho controle sobre nada. Até o controle das minhas ações é um papel a ser interpretado cotidianamente, porque se ele fosse real, as consequências sempre atenderiam às intenções das minhas ações. Possuem prazos de validade as raras situações em que expectativas são atendidas, e cabe a nós saber lidar com a essa quebra. Porque uma certeza é de que ela virá. Um amortecedor de quedas é o cair em desatenção. Por mais que te cause dor e um certo ar de desapontamento consigo mesmo por ter parado de sustentar sua atenção no ponto, no fim, resta apenas aceitar a avalanche de mudanças que por um longo tempo você decidiu se abster. Doses elevadas de autoproteção podem virar um autoataque. Se abster de algumas realidades é necessário, mas pode virar facilmente um estado de negação. Apenas a partir da aceitação da falta de controle que o contorcionismo passa a ser uma acrobacia. E num band-aid com estampa infantil para as feridas abertas e profundas causadas pela quebra de expectativa, o nome "controle" passa a ser substituído por "responsabilidade". Porque é algo mais orgânico, mais palpável, "tu ter tornas eternamente responsável pelo que cativas". A intenção da ação de se responsabilizar está na necessidade de uma via de mão dupla, e só. Fala de um compromisso imprescendível com o tempo agora e tudo que ocupa o espaço presente: você, o outro e o abismo da infinidade de coisas nomináveis e inomináveis. E isso devia ser o bastante. Ao contrário do eterno, que nunca será o bastante pois não existe.
Matematicamente falando as possibilidades de uma escolha são infinitas, assim como suas consequências. Escolhas e suas consequências se comportam como uma cadeia contínua. A vida gira em torno de escolhas, é o que dizem. E quanto mais tenho procurado tentar entender minhas escolhas e os efeitos dessas, dos desprezíveis aos mais perceptíveis, mais tenho compreendido que o risco de receber algum tipo de dano sempre existe. A questão é se eu tenho ferramentas (físicas ou psicológicas) para entender qual será o tipo de dano antes mesmo de eu fazer aquela escolha, porque alguns danos simplesmente não valem a pena. Sem falar nos casos em que você já experienciou os efeitos da escolha, já sabe o que vai acontecer, e mesmo ciente dos danos, repete a escolha. Talvez você repita porque acredita que esse efeito vai mudar. Mas é sempre o endereço que muda. Na 234º repetição da escolha o efeito não tem mostrado qualquer resquício de mudança, e é aí que você passa a alimentar um fantasma e programar o próprio susto. E toda vez que ele aparece, você se assusta como se fosse a primeira vez que o estivesse encarando.
Alguns danos são silenciosos demais e demoram pra dar as caras. Demora pra enxergar o rosto dele. Acho que o problema não está no risco de surgirem danos, alguns são inevitáveis e muitas vezes é impossível controlar a intensidade do efeito. Acho impossível chegar a um "estágio" na vida que se centre apenas no prazer, sendo nós, seres humanos vivendo em constante contato com outras pessoas completamente diferentes. Longe de serem quebra-cabeças, e sim uma grande tralha de subjetividades desorganizadas e acumuladas, prontas pra serem usadas da pior forma possível: como armas apontadas aos outros. A dor existe e é inevitável. No entanto, não cabe aqui (e nem em mim) o significado cristão de transformar a dor numa forma de se alcançar um aprendizado, como se o propósito fosse único, digno e abençoado pelos céus. Algumas dores são descabíveis, danos historicamente repetidos pelas mesmas mãos que nunca ficam sujas de sangue nos holofotes. Mas aqui nesse texto não estou falando desse tipo de dor.
Paguei na faculdade uma disciplina chamada "Biossegurança", e numa das aulas foi discutido sobre como profissionais que trabalham em laboratórios estão a todo momento expostos a diversos tipos de riscos: biológicos, químicos e físicos. O risco é inerente a escolha, o benefício, não. Em alguns casos depende, o risco e o benefício podem ganhar formato com o tempo. Toda escolha implica num efeito que vai te expor a um risco e esse risco pode gerar um dano. Acho que a atenção tem que se voltar para qual tipo de dano a escolha vai gerar, porque algumas escolhas custam mais danos que os benefícios. Por um lado, uma escolha pode se alinhar de forma orgânica às sua expectativas, por outro lado há o risco da existência de danos que podem te levar a uma prisão. Por exemplo, numa situação de escolher lados, após analisar detalhadamente cada motivo do que o fez assumir certo posicionamento, ao mesmo tempo que isso pode contribuir para uma postura mais segura, também pode te deixar refém de situações totalmente opostas a isto. No filme A Pequena Sereia, a princesa Ariel troca a voz por pernas e embora seja um desenho do fim da década de 80, esse ato abre discussão para temas como reprodução de ideais romantizadores tóxicos. Mas aqui quero apenas destacar a escolha da Ariel e suas motivações: ficar sem voz iria lhe fazer ganhar pernas e perder a cauda para viver ao lado do príncipe Eric. Os danos dessa escolha estão nítidos: anular características da sua identidade para se adaptar ao outro. Mas sim, relacionamentos (e a vida num geral) também são feitos de concessões, mas algumas coisas são inegociáveis e ninguém conversou sobre isso com a Ariel.
Limites precisam ser desenhados, para que as escolhas não gerem danos que são difíceis de se reverter. Limites são redutores de danos. Que as concessões existam, mas que nunca encorajem comportamentos autosabotadores ou autoanuladores, naquele que o faz. As brincadeiras de infância que envolviam desenhar uma linha no chão para separar espaços por conta de grupos ou posições diferentes, tinham um ponto. Sem limites, a brincadeira não acontecia.
Eles estão em descansos de tela de computadores, papéis de paredes de pequenas lanchonetes e cadernos, salas de espera de consultórios, no fundo de joguinhos de argolas de plástico (descobri que se chamam aquaplay).
E por incrível que pareça, em fundos de aquários artificiais, como se fosse uma desejável companhia para os peixes vivos que ali habitam. A convivência habitual em cardumes varia de espécie para espécie, mas como será que esse papel de parede influencia no comportamento dos peixes? É de forma positiva, negativa ou sem efeito significativo?
Seria essa uma tentativa de agradar os peixes para diminuir o sentimento humano de culpa por os terem tirado a força de seus habitats naturais por um mero capricho humano? Não sei, talvez seja apenas para dar uma ideia de maior volume para os visitantes se entreterem. Humanos gostam de se entreter. Principalmente com o sofrimento alheio.
O que há de tão fascinante no universo aquático que leva os humanos a os usarem como ícones fotográficos? A aparente falta de poluição? A saturação de cores que raramente vemos no meio terreno? A enorme diversidade de peixes? A individualidade dos peixes? Ou será o senso de coletividade dos cardumes, que apesar de nadarem separados estão em bando, e ainda assim são livres para escolher diferentes direções sem ser impedido por outros peixes?
A ausência total de barulho ou sinal humano.
a gente cresce e aprende a engolir seco espinhos. novas formas de socos e pontadas no estômago que acontecem na ausência de mãos e pés. são palavras as responsáveis pelas feridas. palavras que ao invés de entrarem por um ouvido e sair pelo outro, se acomodam em locais que não tem placas de boas-vindas, em tetos de vidro do coração. palavras que são estraga prazeres, espinhos, espingardas com balas e alvos infinitos. a regeneração é uma benção e uma maldição. palavras que entram como lixo em sacos que estão furados. me sinto só. a gente cresce e tem que aprender a ficar bem só na nossa companhia. aprender a ficar bem depois de ficar mal, não pode ficar mal o tempo todo porque aí tem outro nome: depressão. e quando é apenas solidão? solidão é constante. todos nós estamos sós, ainda que dependemos uns dos outros. estamos sós quando não conseguimos ser compreendidos num instante, e fingir que não estamos sós, isso sim é estado de negação da realidade. me pediram pra ser realista, estou sendo. estamos sós e não devíamos criar expectativas de que amor envolve um estado completo de compreensão. amor também é solidão. mas o que eu faço com toda essa dor? eu sinto, e depois fico bem, pra depois tudo reiniciar? talvez eu não queira resistir a dor, depois de senti-la, talvez eu queira ser sucumbida até desaparecer, pela dor. talvez eu só queira não sentir nada. seria mais útil utilizar meu tempo em prol de algo maior que eu, maior que minhas dores e alegrias. com certeza seria mais útil.
proponho um fim aos ciclos de sentimentos, quero ficar vazia, quero morrer e não ressuscitar, não quero morrer de amor e nem de tristeza, quero morrer de velhice. quero sumir quando sinto vontade. quero ibernar de olhos abertos, o estado de transe do cotidiano já não me afeiçoa. congelar o tempo é possível quando você tira fotos pelo celular e não esquece de salvar. quero conquistar coisas, sem ter que fazer cerimônias. compromissos me assustam, mas sei ser responsável quando a situação pede. quero ser leviana com minhas sombras, e ser sólida com minhas qualidades. quero manter minha atenção em mim e no agora, e somente. não quero ter que dividir minha atenção em várias coisas ao mesmo tempo, é cansativo, e a superficialidade já não me afeiçoa. quero ser superficial sentimentalmente, quero que o outro não tenha poder sobre mim. quero dominar coisas, e não pessoas. situações que podem se desmanchar a todo momento, que nem laço de cadarços de sapatos. quero aceitar a natureza de desamarro das coisas. uma hora tá ali, na outra não tá mais. não quero ter a tendência absurda de manter meus olhos e mente numa tristeza. quando me afundo nela, uma hora vejo o buraco sem fundo, e volto pra superfície. não quero estar nessa situação, para ser sincera. a superfície é tranquila, as margens são meu mantra. não quero me atirar no olho de tempestades internas.
por isso repito, quero ser superficial sentimentalmente.
o que fazer quando a existência é uma prisão?
não sei pra onde vou, não estou satisfeita onde estou, faço planos que nunca se realizam. a rotina de jogar rascunhos no lixo vai me levar a lugar nenhum. me auto proclamo um fracasso, para que não seja um fim que vou atingir, nem de onde parti. me autoproclamo, e já tiro o peso de que vou ser um fracasso, se já sou não tem como ser duas vezes o mesmo fracasso. posso continuar a ser o fracasso mas com a possibilidade de não ser o mesmo fracasso. posso cometer novos erros e acertos. me sinto mais leve já.
faço planos porque me disseram que o correto é fazer planos. acordar cedo, se organizar com antecedência, limpar a mesa e colocar uma roupa bonita, lavar os pratos e ser grata. e sempre tem o "não esqueça de respirar", embora ninguém realmente esqueça de respirar. trabalhar e esperar. eles sempre dizem essas coisas como se fossem pegadas até um tesouro que não existe. o pote de ouro no fim do arco-íris é um pote vazio, e o doende que cuidava desse pote morreu atropelado certa vez em que repetia o caminho de ida ao seu trabalho. o ofício era simples: ficar de prontidão ao lado do pote vazio. não importava se o pote estava cheio ou não, ninguém conseguia chegar no pote, eram muitos desafios pra se chegar no pote, muita gente morria no caminho, ou por conta de descrença ou por medo do doende. imagens tem poder, sustentá-las é uma forma de controlar. uma ilusão pode ter tanto poder sobre seu destino quanto um tiro. mas o doende morreu, e o pote caiu com um ventania que deu. poucas pessoas chegam até o outro lado do arco-íris, e as que chegam morrem após quebra de expectativa. no final, todos percorrem um propósito que outros disseram que era um propósito, e morrem insatisfeitos. é sempre assim.