segunda-feira, 24 de janeiro de 2022

a gente cresce e aprende a engolir seco espinhos. novas formas de socos e pontadas no estômago que acontecem na ausência de mãos e pés. são palavras as responsáveis pelas feridas. palavras que ao invés de entrarem por um ouvido e sair pelo outro, se acomodam em locais que não tem placas de boas-vindas, em tetos de vidro do coração. palavras que são estraga prazeres, espinhos, espingardas com balas e alvos infinitos. a regeneração é uma benção e uma maldição. palavras que entram como lixo em sacos que estão furados. me sinto só. a gente cresce e tem que aprender a ficar bem só na nossa companhia. aprender a ficar bem depois de ficar mal, não pode ficar mal o tempo todo porque aí tem outro nome: depressão. e quando é apenas solidão? solidão é constante. todos nós estamos sós, ainda que dependemos uns dos outros. estamos sós quando não conseguimos ser compreendidos num instante, e fingir que não estamos sós, isso sim é estado de negação da realidade. me pediram pra ser realista, estou sendo. estamos sós e não devíamos criar expectativas de que amor envolve um estado completo de compreensão. amor também é solidão. mas o que eu faço com toda essa dor? eu sinto, e depois fico bem, pra depois tudo reiniciar? talvez eu não queira resistir a dor, depois de senti-la, talvez eu queira ser sucumbida até desaparecer, pela dor. talvez eu só queira não sentir nada. seria mais útil utilizar meu tempo em prol de algo maior que eu, maior que minhas dores e alegrias. com certeza seria mais útil. 


proponho um fim aos ciclos de sentimentos, quero ficar vazia, quero morrer e não ressuscitar, não quero morrer de amor e nem de tristeza, quero morrer de velhice. quero sumir quando sinto vontade. quero ibernar de olhos abertos, o estado de transe do cotidiano já não me afeiçoa. congelar o tempo é possível quando você tira fotos pelo celular e não esquece de salvar. quero conquistar coisas, sem ter que fazer cerimônias. compromissos me assustam, mas sei ser responsável quando a situação pede. quero ser leviana com minhas sombras, e ser sólida com minhas qualidades. quero manter minha atenção em mim e no agora, e somente. não quero ter que dividir minha atenção em várias coisas ao mesmo tempo, é cansativo, e a superficialidade já  não me afeiçoa. quero ser superficial sentimentalmente, quero que o outro não tenha poder sobre mim. quero dominar coisas, e não pessoas. situações que podem se desmanchar a todo momento, que nem laço de cadarços de sapatos. quero aceitar a natureza de desamarro das coisas. uma hora tá ali, na outra não tá mais. não quero ter a tendência absurda de manter meus olhos e mente numa tristeza. quando me afundo nela, uma hora vejo o buraco sem fundo, e volto pra superfície. não quero estar nessa situação, para ser sincera. a superfície é tranquila, as margens são meu mantra. não quero me atirar no olho de tempestades internas.

por isso repito, quero ser superficial sentimentalmente. 

o que fazer quando a existência é uma prisão?

não sei pra onde vou, não estou satisfeita onde estou, faço planos que nunca se realizam. a rotina de jogar rascunhos no lixo vai me levar a lugar nenhum. me auto proclamo um fracasso, para que não seja um fim que vou atingir, nem de onde parti. me autoproclamo, e já tiro o peso de que vou ser um fracasso, se já sou não tem como ser duas vezes o mesmo fracasso. posso continuar a ser o fracasso mas com a possibilidade de não ser o mesmo fracasso. posso cometer novos erros e acertos. me sinto mais leve já.

 faço planos porque me disseram que o correto é fazer planos. acordar cedo, se organizar com antecedência, limpar a mesa e colocar uma roupa bonita, lavar os pratos e ser grata. e sempre tem o "não esqueça de respirar", embora ninguém realmente esqueça de respirar. trabalhar e esperar. eles sempre dizem essas coisas como se fossem pegadas até um tesouro que não existe. o pote de ouro no fim do arco-íris é um pote vazio, e o doende que cuidava desse pote morreu atropelado certa vez em que repetia o caminho de ida ao seu trabalho. o ofício era simples: ficar de prontidão ao lado do pote vazio. não importava se o pote estava cheio ou não, ninguém conseguia chegar no pote, eram muitos desafios pra se chegar no pote, muita gente morria no caminho, ou por conta de descrença ou por medo do doende. imagens tem poder, sustentá-las é uma forma de controlar. uma ilusão pode ter tanto poder sobre seu destino quanto um tiro. mas o doende morreu, e o pote caiu com um ventania que deu. poucas pessoas chegam até o outro lado do arco-íris, e as que chegam morrem após quebra de expectativa. no final, todos percorrem um propósito que outros disseram que era um propósito, e morrem insatisfeitos. é sempre assim. 

terça-feira, 22 de maio de 2018

Sobre nunca ser suficiente



A tentativa já não tem mais graça. Tentar fazer certo e nunca chegar ao menos perto, é uma carapuça pro que é errado. Porque na essência, o errado só é mascarado com tentativas falhas. Não tem conserto, é uma orquestra de violinos que espetam seus olhos cujas cordas no final toram. Na tentativa de falar o que penso minhas cordas vocais falham e meu violino é partido ao meio, quebra rápido. Eu não falo, mas eu não sou esse silêncio. A pele que me cobre não é o pensamento que me batizei hoje, e nem o que me batizarei amanhã. E o que fazer se já não consigo costurar pele e pensamento para aqueles que eu amo? Não ter tradução de si próprio parece ser um produto que veio com defeito. Porque é isso que a gente é né? Códigos de barra, jovens empreendedores e donos de si mesmos, seguros do futuro. "O futuro é você, o futuro começa agora ". O futuro não é porra nenhuma, ele nem existe. Eu não sei. Queria saber, mas principalmente queria que eles soubessem que ao encontrá-los, eu procuro a fuga do vazio de movimentos e gritos do mundo e das minhas máscaras eu me disperso. Mas, do que adianta eu não ter máscaras e ser tratada o tempo todo como uma cabocla desconhecida? E de repente, o ódio se multiplica e a raiva vem em forma de copos quebrados e um efeito dominó de gritos. E o final volta ao começo: ser suficiente nunca foi meu forte. Já escrevi sobre copos cheios demais e vazios demais, mas o meu copo? Ele nunca tem o suficiente pra ser vazio ou cheio demais, ele não é nada. Eis aqui o Meio Termo: criador das hipocrisias da vida. Eis-me aqui. Ou apenas eis aqui a minha imagem e o que os outros projetam nela: pode ter de tudo que existe no mundo, menos o que eu sou. É um eco burro que vivo todos os dias: eu escuto o grito, e grito mais, com tanta força que você não pode imaginar. Com tanta força que chega a ser mentira meu grito, porque na verdade eu não queria gritar. Os pulmões cansam, e pensam melhor que eu: palavras sem beira pra abrigo são o mesmo que bóias furadas para passageiros de um naufrágio, não valem a pena ser ditas, muito menos gritadas. Mas é que em momentos de descontrole, a verdade que é mutável, naquele momento é uma verdade imutável. Porque estamos no agora. E isso dói. A gente só ter o agora como vida, o passado como morte, e o futuro como desconhecido, não dói. Ter o corpo de alguém aqui e agora, mas não encontrar a mente, dói, porque é uma mistura de passado e futuro, morte e desconhecido. Eu não a tenho aqui, portanto, não a sinto. Se eu não sinto, eu grito, e o grito não resolve, é cascata. E o final volta pro começo: eu não sou suficiente. E nunca serei, pra você. Me desculpe.

terça-feira, 24 de abril de 2018

Um mergulho

Meus pés pisam num chão
Vestido por migalhas de rochas milenárias 
Tapete de pedras
Antes preciosas do que meros fragmentos
Cada uma de formato diferenfe
E ao invés de serem cacto 
Caem como casacos grandes sob dedos gelados de um esquimó
em pleno polo Norte

O sol queima minha pele
com a rapidez de um palito riscando um fósforo
Um esqueleto encaixado a quilos de carne
É sensível a um raio solar
Vulnerabilidade
A areia vai ficando úmida
Não podia ser feita apenas de fogo
A água a faz transcender
O chão continua casa para meus pés

O mar é sanfona 
de um instrumentista solitário 
é iô-iô gigante
é margem pra correnteza sem freio
é que nem um ser vivo
sem rosto, sem olhos
Entrelinhas de ventos e ondas
O sal faz arder
Mensageiro fiel de apolo
Faz ferida chorar
Cicatriz abrir
E mais uma vez
Vulnerabilidade




terça-feira, 17 de abril de 2018

A prática é inimiga da perfeição- a não ser que tenham câmeras por perto

A prática é inimiga da perfeição- a não ser que tenham câmeras por perto

A revolução não vai ser feita através da palavra por si só. A revolução não vai ser feita por um texto com palavras conceituais, por um poema com estrofes bem resumidas, um compartilhamento, um rt, muito menos pela teoria daquele livro didático que custa 400 reais na livraria mais popular do bairro. Esses atos são necessários para o primeiro passo, mas não chegam perto de serem o bastante. A revolucão é feita pela ação. Ou deveria, na prática.
O que é o conceito contemporâneo de ação se não uma obra de arte que é apenas lembrada por ser cara e rara? Por poder ser feita por uma minoria e por isso, inalcançável. Não querem pensar, sentir, não querem agir. Agem como visitantes, estão ali para se confortarem. Agem admirados por algo que deveria ser parte de uma rotina humana. A ação se torna um símbolo atraente, bonita pra admirar de longe, elegante pra câmera. A prática é inimiga da perfeição, é um trocadilho sem graça, careta. A ação é bonita pra ser vista e não pra ser praticada. O ativismo de sofá é real.

quinta-feira, 29 de março de 2018

O significado de felicidade que não se lê em dicionários e guias espirituais

O que dizer aquele
Que ao nascer colocam
sobre suas mãos
pequeninas e gordinhas
Um isqueiro
Ao invés de uma manta quentinha
E dizem
Queime livros!
Ascenda cigarros!
O pódio da vida é o escarro!
Foi assim que lhe ensinaram
É preciso sofrer pra ir de encontro
à felicidade
Num bistrô bonito
De paletó fino
Hora marcada e tudo
É patamar por onde não se sobe,
Se desce por um abismo
A felicidade é cara meu filho
Sua mãe dizia
A felicidade é bilhete de telecena premiado
0,1 em 1 bilhão de possibilidades
Eu não tive que estudar menino
pra saber
Que a felicidade é seletiva
Usa bengala e arco e flecha
Só não usa meio termo, essa danada!


domingo, 4 de março de 2018

A saudade é uma dama

Uma dama de vermelho vestida de véu preto que chega devagar, silenciosa que nem névoa em bosques longínquos, muito longe de embaçar, ela esta pronta pra mostrar o que ninguém enxerga e lembrar o que todo mundo esquece. Ao redor estão rostos que parecem espelhos que refletem luzes, algumas sao brilhantes, outras são como candelabros, quase penumbras, e outras são como ceras que beiram pratos metálicos gelados, em um dia frio, com uma pontinha preta fina no meio de vela, ainda assim acesa. Ao redor do lago azul de olhos tristes, encontram-se linhas, rugas de cenas que jamais serão vividas de novo. A rotina já não é aquela velha amiga, e a chegada das luzes são convidativas, nostálgicas. A saudade já não é aquele velho sentimento de fins de semana, de dias que contamos nos dedos. Ela vem em forma de anos, como uma encomenda grande e gorda, onde na embalagem é grafado em caligrafia itálica, pairando ar de delicadeza: dias a menos. Dias a menos. Dias a menos pra um jantar num restaurante, dias a menos pra um encontro marcado, dias a menos pra vê-los. Dias a menos para não vê-los. Dias a menos. Por que a ambiguidade habita em cada canto que nos encostamos? Aquela mesma estação de ônibus que vai trazer o seu amor, vai levá-lo embora. Aquela mesma casa que guarda as luzes, e que fica tão cheia e tão viva em questão de segundos, vai ser invadida pelo vazio em questão de dias a menos. Pois é, o tempo é rei e carrasco em terra de saudade. A saudade é dama de vermelho e véu preto em terra de dias a menos. Tinha dias que a rotina era um caco de vidro no pé, em outros era um mal necessário. Mas sempre que o laço da rotina quase ia sendo cortado, a saudade chegava rasgando cada traço de tentativa de fuga. A memória beijava todos os dias seus olhos, e não a deixava em paz. Não queria mais cartões postais, telegramas ou fotografias, cuja beleza enfeitiçava a saudade. A beleza vindo em porções pequenas, ainda assim engana. Mas não sacia. Não sacia a vontade do sentir o cheiro, de ver o olhar de manhã cedo, de escutar assobios e cantos misturados aos sons dos passarinhos. De viver o momento e não a distância. A saudade é aquele copo de café preto em xícara de cor meio caramelizada, meio queimada, de gosto meio amargo, meio seco, que ao entrar na garganta queima. Mas o cheiro, ah! O cheiro encanta qualquer nariz aberto a odores shakesperianos. É cheiro de tempo e de saudades, de Reis e Carrascos. De livros mau lidos, bem lidos, antigos, rasgados, queimados, escondidos, perdidos, achados, deixados na cabeceira de lado, deixados no fundo da gaveta cobertos de poeira, terceirizados, lambidos, cuspidos, beirando a linha do trascedente, beijados. As saudades são as botas batidas do Judas, que vez ou outra são encontradas trazendo chulés, vez ou outra sendo abrigos à pés que andam como espinhos em estradas de barro.

A arte da guerra silenciosa Mover-se em prol de interesses, é natural. Considerar tempo, custo e benefício antes de tomar decisões, é insupo...